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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Quero saber

Revirei-me do avesso, despi-me de dentro para fora. Quero saber de onde vem isto de sentir tanto. Em demasia, para o pouco que um só peito suporta. Quero saber. Quem me tornou cativa do meu coração. A contar-lhe batidas, anseios, corridas. Ao menos que me fizessem maior. Ou dividissem as penas por mais prisioneiros. 

Fiz contas ao que tenho, e sobrou-me saudade. É o troco que se leva quando se sente. E eu já disse que sinto muito. Não tenho porta-moedas para tanto sobejo. Às vezes, deixo-as cair. Copiosamente, como chuva em dezembro. Depois resto-me a mim para as apanhar, secar, guardar.

Viver cá dentro é conviver com tudo o que foi, e tudo o que será. Estou cansada de não ter espaço definitivo no tempo. Quero saber o agora. 

Quero saber. 

 

Lá onde um banco é metáfora, contam-se histórias em guardanapos de papel

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Para chegar atravessa-se uma rampa íngreme. Como se quem lá passa, já não levasse carrego suficiente no peito. Há que ter pernas e coração fortes. Ou, pelo menos, um par de ombros alheios, que sirvam de amparo a almas desamparadas.

É quando se faz aquela curva, onde começam escadas e preces, que se abre o mundo. Os muros rendilhados a muralha, denunciam-lhe o nome com que o baptizaram. Castelo. Onde o Tejo é rei, e tudo o resto lhe beija a margem.

Há um banco de madeira nova, assente em cimento velho. A árvore que lhe dá sombra, inclina-se cansada, ou sedenta da água que tem à frente, mas que nunca alcança. Quem lá se calha a sentar, sabe que repousa numa metáfora.

Sento-me a sentir o presente. Guarnapos de papel, escritos a caneta azul, cobrem-me as pernas. Atrás de mim os mortos a repetirem a várias vozes, que o passado não muda. A terra revolta-se, as flores trocam-se, e enfeitam mármores de várias formas. Mas a forma que a vida foi, é igual. À minha frente, o rio a correr adiante, como tem de ser. A contar-me que vamos onde temos de ir, e é melhor irmos serenos

Há guardanapos de papel, com frases soltas, por toda a parte. Histórias espalhadas com o vento, misturadas com as folhas, com as sombras. Os mortos a fazerem guarda de honra ao presente, e o futuro à espera de ser escrito. 

Será.

Está tudo bem

Sei que estás acordada, apesar das horas. Amanhã tens escola, devias descansar. Deixa de olhar as cortinas, até ter passado tanto tempo, que as formas vão mudando de forma. E se apagasses a luz? Esse livro encostado ao candeeiro, para fazer sombra, não é igual à paz de um quarto escuro. Deixa de olhar o abajur e fingir que é um acordeão a embalar-te as noites. Fecha só os olhos.

Sei que não queres dormir, apesar do sono te pesar as pálpebras, e o cansaço te minar o corpo pequeno. Larga os livros que fazem pilha ao lado da cama. Podem fazer-te companhia fechados, despojados da tua atenção. Fecha os olhos e inventa uma história feliz. Diferente das que te contas todos os dias. Descansa.

Eu sei. Eu sei que queres velar o corredor escuro, para antecipar a escuridão. Que o medo atenuado pela luz, é medo à mesma e não te deixa dormir. Eu sei que contas os segundos, num dueto perfeito com os ponteiros do relógio. Como se contar o tempo, fizesse o tempo passar mais rápido. Pára. Por favor, fecha os olhos. Está tudo bem. São muitas noites mais tarde, e está tudo bem.

 

Um copo de tinto e saudade

Havia cavalos no Tejo, a refrescarem um dia de verão. Pessoas na rua, a fazerem dela o que ela era antigamente. A brisa era quente, como o calor daquela gente. Ao canto, sentado num muro branco, a condizer com a camisa, estavas tu. Cabelo ainda negro, como as azeitonas que apanhávamos nos finais de tarde, de cada outono. 

"Não chego lá, avô. Não chego!"

Continuavas a tarefa comigo às cavalitas. Mais azeitonas no chão, que na saca. Mais amor, sempre.

Estavas, à conversa, debaixo da única sombra que existia. Rias. Muito e alto. Não me viste e não fez mal. Encheste o copo de vinho e brindaste à vida.

Cada vez que o peito aperta e tudo aflige e dói, esperas que durma e apareces. Tu e o copo de tinto. A lembrar-me que quando ele está vazio, somos nós que o temos de encher. À sombra de um dia de Sol, na margem do rio que somos, nas gargalhadas antigas de um amor que é para sempre.

Até ao próximo brinde.

 

É o espelho de outra parede qualquer

Às vezes fixo um ponto na parede e fico a olhá-lo, como se me visse. A altura é a minha, mas mais altiva, e os dedos finos têm mais firmeza. O cabelo alourado não tem pontas soltas, e sabe bem com que linhas se amarra. O nariz é igual, pequeno, mas ascendente, como se fosse o primeiro a chegar, quando chego. Trago debaixo do braço folhas soltas, escritas à mão. Letra perfeita, tinta preta. Detesto tinta preta.

"Sabia que ia chegar o dia."

É tudo o que consigo ler, por entre um cotovelo e uma costela. Suponho que chegue. Que aquele ponto na parede seja espelho de outra parede qualquer. Que me espera. Que me reflecte inteira, com medos e sonhos, desmedidos na mesma medida. 

"Sei que o dia há-de chegar."

A letra vai ser perfeita, mas a tinta será azul.

Quando ele deixou de ser agora

Levantou-se a meio de um domingo de agora, sozinho e confuso. A casa afundava-se no pouco que sobrava, e em tudo havia quase nada de afecto. Olhou para o relógio. Já eram trinta anos atrás. Procurou a farda de um trabalho que já não tinha, e comeu apressado, atrasado para coisa nenhuma.

Sentou-se. A cadeira rangeu, num esgar de dor que abraçava todas as dores que passaram por ela. Olhou a mesa e tudo o resto. Espaços alheios que sempre foram só dele. Já teria comido? O prato vazio a dar-lhe a resposta. A dúvida vincada, na memória que lhe fugia.

Chamou-a. O silêncio trouxe-o de volta ao presente, e ao luto que fazia cada vez que ela não respondia. Pegou no prato e no copo e, sem saber onde ia, largou-os logo a seguir. Levou as mãos à cabeça. Lembrou-se que estava atrasado. Eram trinta anos depois. Bem podia ser agora, ou mais tarde. Ele já não era hoje. 

 

Era uma casa que se duplicava, e que à noite sussurrava amor

Quando aparecíamos todos ao mesmo tempo, éramos muitos, e a casa fazia o favor de duplicar. A mesa desdobrava-se noutra e albergava-nos sem excepção. Pratos e copos desavindos, e uma ou outra colher a servir de garfo. Os ovos faziam par com as salsichas, e as batatas fritas empapadas em óleo, repousavam em guardanapos de papel, até a avó dar ordem.

"Vá, filhos, toca a comer."

Havia um que não gostava da gema, e outro que não gostava da clara. Havia sempre algum a abusar da coca-cola, e outro a controlar quantos copos a menos esse ia beber amanhã. 

"Hoje fico no lugar do avô."

Dava sempre discussão, como se a cadeira do avô nos fizesse maiores, melhores. Como se dali se visse o mundo todo, e um bocadinho mais além.

A noite chegava devagar, como se não quisesse incomodar tanta luz com escuridão. Então, havia banhos de par em par, pijamas improvisados, canecas de café com leite, e bolachas Maria barradas com manteiga Planta. 

Éramos cinco para uma cama de corpo e meio, e eu imaginava sempre algum a ser serrado em dois, mas nunca eu. No chão de madeira velha, a avó empilhava cobertores até conseguirmos fingir que tínhamos um colchão. Dois apertavam-se na cama, outros três no soalho. Conversávamos baixinho, num riso que se segreda e uma felicidade que se abafa, mas não se contém.

Era quando iam adormecendo, um a um, que eu me mantinha acordada para os ouvir.

No quarto que guardava a porta de casa, no silêncio dos netos que se renderam ao sono, os meus avós falavam num sussurro doce e indecifrável. As luzes do candeeiro de rua a iluminar parte do corredor, os ponteiros do relógio da sala a embalar a noite, e eles. As vozes baixinhas a contar histórias que nunca soube quais eram.

Fechava os olhos e deixava-me adormecer. Até hoje, ninguém escreveu balada mais doce, que a melodia dos meus avós a conversarem na noite.

Se puderes, desculpa-me

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Desculpa.

Devias ter podido dormir sem o peso de ouvir tudo o que a noite grita. Eras pequena, sem tamanho para o medo que te habitava. Então, ele engoliu-te, misturou-se em ti até serem a mesma coisa. De luz acesa, porque o escuro desafiava-te a coragem, fingias que lias enquanto pedias. Pedias que a manhã chegasse tranquila, mesmo que amanhecesses exausta.

Desculpa.

Devias ter podido brincar sem saber que coisas más acontecem. E rir, e correr, e estar em ti sem pensar que as pessoas vão embora, e que choram e que há coisas cruéis dentro delas, que não são culpa tua. Não tinhas culpa. Ouviste? Nunca tiveste culpa.

Desculpa.

Devias ter podido crescer a saber o teu tamanho. Já eras tão grande, mesmo quando a altura não combinava. Deviam ter-te contado coisas boas sobre ti, para, quando daquela vez que te disseram que eras nada, saberes que te mentiam. Mentiram-te, porque eras tudo. As pessoas têm medo de pessoas que são tudo.

Desculpa.

Devias ter podido viver para ti, sem a sentença de cuidar. Porque se não cuidasses iam embora, porque se não te desses e te esgotasses nos outros, ficavas sem os outros e sem ti. E depois? O que é se faz quando não somos?

Desculpa. 

A ti. A mim. A nós, que sou só eu. Desculpa. 

Dois miúdos, um aniversário e uma faca de cozinha

1 de junho de 1988.

A entrada da casa da vizinha era uma espécie de terraço que desaguava numa cozinha. Havia uma parreira que trepava pelas paredes e abraçava-se lá em cima, a fazer sombra a quem lá parasse.  A porta  era escudada por umas fitas de plástico vermelho, onde eu gostava de me enrolar. Diziam que era para afastar as moscas, mas era pouco eficaz a afastar-me a mim.

"Não te pendures, que isso cai. E larga isso, olha as moscas."

Naquele dia, as fitas estavam arredadas, o que me fez pensar que um bocadinho de moscas não fazia mal a ninguém. Penduraria-me mais vezes. No chão, uma imensa toalha de piquenique, eu, o aniversariante, e um balde de Playmobil. Era dia de festa, e cheirava a bolos.

De vez em quando, passava pela mesa grande, improvisada com ripas de madeira, e esquivava-me para a cozinha. Queria ver a vizinha a bater claras em castelo, e a tapar os buracos dos bolos com tampas de tupperware, porque ficavam mais bonitos.

"Esse é de quê? Eu não gosto de chantilly. Posso rapar? Ele faz mais um ano que eu, sabias?"

Sabia, que o pariu.

O dia ia longo, e um choro aflito estremeceu as parreiras. Quem costumava chorar era eu, ele não, mas tinha razão. Na tentativa de deixar careca um dos bonecos, cerrou-lhe os dentes para lhe arrancar o cabelo, e ficou com o lábio entalado. Ele gritava e o lábio inchava, e ele gritava ainda mais.

Na pressa de ver o rapaz despachado para a própria festa de aniversário, a vizinha pegou na maior faca de cozinha que encontrou e foi, decidida, resolver a questão. Quatro olhos arregalaram-se. Os dele e os meus. Houve um silêncio que encheu o terraço, até que ele gritou:

"Chama a Júlia!"

E eu chamei. 

Primeiro riu-se, porque ela ri muito e aquilo tinha graça. Riu-se dos quatro lábios que ele parecia ter, e da vizinha, desnorteada, ainda de faca na mão. Depois, devagar, e sei lá como, desentalou-lhe o lábio, devolveu o cabelo ao boneco e o boneco ao balde. Ajeitou a saia, riu mais um bocadinho e despediu-se com um "Até já, e não te pendures nas fitas".

Foi nesse dia quente de junho, à sombra de uma parreira, na doce calmaria que segue sempre uma tempestade, que percebi: a minha avó era de toda a gente.

Se caíres, não te demores

"Ai, minha rica filha."

Era assim, de sobressalto na voz e mãos na cabeça, como quem vê a desgraça a passar-lhe rente ao peito, que a minha avó reagia quando me via cair.

Com mais ou menos sangue, mais ou menos lágrimas, o aparato era igual. Nem maior, nem mais pequeno.

"Ai, minha rica filha."

Corria até mim, levantava-me, sacudia-me o vestido, e limpava-me as feridas, se as havia. Depois voltava serena ao que estava a fazer, enquanto anunciava que aquilo não era nada e eu, que fosse à minha vida.

Foi assim pelos anos fora. Condoída por me ver sofrer, mas logo pronta a desfazer os nós que às vezes eu própria emaranhava. É um desapego apegado de quem sabe que tudo se perde, e não há tempo a perder.

Cada vez que me desiquilibro e esfolo os joelhos da alma na vida, ouço-lhe o grito, e sei que, a seguir, vai ficar tudo bem.

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