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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

As boas famílias medem-se em revistas Maria

Não sabia bem onde começava e terminava a família. Diziam que o sangue era fórmula, mas nunca me serviu nos cálculos.

Às vezes chegavam visitas de surpresa. Tinham me dito que surpresas eram coisas boas, mas eu quando abria presentes não ficava com o ar desacorçoado da minha avó, quando abria a porta.

"Dá cá um beijinho à tia."

E eu ia beijar os pés da mesa, que não conhecia a senhora e não queria abrir precedentes. É que atrás dela, vinha outra.

"Lá está ela a brincar às escondidas."

Não estava a brincar, não. 

"Oh 'vó, posso ir à vizinha?"

E corria passeio abaixo. Abria o portão verde e entrava sem me anunciar. Não gritamos presente, cada vez que entramos em casa. Sentava-me na sala a ler revistas, à espera da minha vez de jogar naquela coisa que se ligava à televisão.

Um dia, de revista Maria na mão, entretive-me a ler o consultório sentimental. Achava muito estranho se escrever para uma revista a perguntar se se estava grávida, em vez de ir ao médico. Mas isso era eu. Entre várias questões, saltou-me à vista uma em particular, que me intrigou.

"Oh vizinha, o que é um orgasmo? Está aqui uma senhora a dizer que não tem."

O silêncio que se fez, só foi ultrapassado em dimensão pela gargalhada que lhe seguiu. Não aprendi, naquele dia, o que era aquilo que aquela senhora não tinha, mas soube que, família, é onde não temos medo de ser. Mesmo quando tropeçamos em perguntas difíceis.

Trago um bairro comigo

Era um bairro que fazia jus ao nome. Com vizinhos que se conheciam, e distribuíam  ramos de salsa, que apanhavam das hortas, ou ofensas e promessas de "se te apanho mato-te".

No verão, ao final do dia, juntavam-se ao fresco, com o chão de cimento ainda a emanar calor.

Eles falavam de uma coisa que era o Governo, e desabafavam que "assim não vamos lá". Eu não percebia bem onde é que era suposto irmos, mas esperava que não fosse para ir agora, porque aquelas noites eram as minhas preferidas.

Elas falavam das vizinhas que não estavam, e iam rodando a protagonista conforme a ausência de cada uma. "Isto somos só nós a conversar, han!". Acho que foi o primeiro eufemismo da minha vida.

Debruçavam-se nos muros sem nunca pisarem propriedade privada. Espalhavam-se pelo passeio, à luz dos candeeiros, e contavam vida. 

"Oh 'vó, posso comer um gelado?"

"Estás a fazer a digestão."

Odiava a digestão. Não me deixava fazer nada. Um dia parou e passei a dar-lhe valor.

Era um bairro, mesmo bairro. De casas baixas e pessoas altas. De portas sempre abertas, porque não se deixa a família na rua.  De jogos de bola com pé descalço, e joelhos esfolados. De irmãos, que eram filhos únicos.

Sobra pouco bairro, do tanto que o bairro foi, mas se fechar os olhos ainda lá estou. O chão está quente, as vozes misturam-se com o som dos grilos, e a minha avó disse para eu comer o gelado, porque já fiz a digestão. 

Entre um sofá e um cadeirão, matam-se saudades com um copo de vinho

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Está fresco, imagino. O Sol já se pôs, mas deixou para trás um filtro de luz que me deixa ver cada canto de cada canteiro. As flores envergonham-se, sem cor nem aroma, e o estendal vazio, corta ao meio aquele espaço que conheço inteiro.

A porta abre-se, e espreitas. Vestes as calças de fazenda cinzentas, demasiado vincadas, perfeitas. Tens o cabelo cortado e a pele menos enrugada, o andar mais recto, mais teu. Não falas, e isso aflige-me. Não te consigo falar, e isso aflige-me mais. Pousas o teu olhar em mim e percebo que devo entrar.

A sala tem mais luz, mas nunca muita. A mesa está posta e há o ruído de uma família grande num espaço pequeno, mas é como se os meus ouvidos estivessem tapados por um oceano. Passam-me pratos e garrafas de vinho pelos olhos. Sei que está frio, mas não o sinto. Não me cheira a nada, mas serves-te do tacho grande. Suponho que seja um dia solene, porque abriram a mesa, e há mais cadeiras do que aquelas que temos. 

Estou apertada a um canto, entre o sofá grande e o cadeirão. Parece Natal, mas não vejo árvore nem presentes. Tudo são vultos e sons indistintos. Menos tu. Pegas no copo de vinho e fazes-me sinal, como quem brinda ao infinito.

Acordo na dúvida se devo acender a luz, mas o Sol decide isso por mim. Fecho os olhos e brindo de volta. Há tanto tempo que não te via.

A janela que guardava o mundo inteiro

Para lá da porta da cozinha da casa da minha avó, havia aquilo a que se chamaria de anexo. Nós chamávamos-lhe barraca. Sempre fomos assim, despojados de realeza que fosse além da terrina antiga, em cima da mesa da sala, onde se guardavam as pastilhas elásticas.

À saída, aos pés do degrau, havia uma espécie de tapete alto em ferro, que me fazia sentir grande, como os grandes. E tropeçar.

"Vai devagar que cais."

E às vezes caía, mas nunca ia devagar.

Os alguidares de roupa no tanque cinzento, e os sapatos lavados com Sonasol, na altura em que Sonasol era tudo o que havia e nada cheirava assim. O avô a fazer copos das garrafas de Sumol. O Sol a queimar o chão que me escaldava os pés, enquanto saltitava para aliviar o ardor.

"Calça-te."

E eu fingia que não era comigo. Não ia agora sujar os sapatos.

Ao fundo, quase encostada ao tecto, por cima de uma mesa larga de madeira, havia uma janela velha. Lavada com o tempo. O fecho lasso, a pedir-me que o libertasse.

"Avó, para onde dá aquela janela?"

"Para onde quiseres." 

Dava para a parede da vizinha. Nem sequer era uma parede bonita, rebocada, pintada. Era tijolo e cimento. Sem preceito. Como se soubessem que nunca ninguém duvidaria, a ponto de querer confirmar, que além daquela janela, o mundo era o que nós imaginássemos ser.

Há um funeral na minha cabeça e não sei o que vestir

Há um funeral na minha cabeça. Constante e repetido, como o soar dos sinos a cada hora de cada dia.

É como um velório em dia de chuva, quando a água não vem para lavar almas, mas para derrocar os poucos que permanecem de pé. Já foram a um velório à chuva? É como se o dia se vestisse a rigor, e as nuvens pesassem mais que todos os corações carregados daquela dor, que só é comparável à dos que acompanham o enterro seguinte.

Há um funeral na minha cabeça, e não sei o que vestir. 

Quero vestir-me de amarelo e levar sandálias, mesmo com o tempo nublado. Mesmo que o cheiro a terra molhada se me entranhe os pés e a vida. Não quero guarda-chuva, nem agasalho. Também não quero chorar, se não sei quem choro.

Não há mortos, missas de corpo presente ou de sétimo dia. Mas há um funeral na minha cabeça. Como um ritual inventado para me fazer duvidar, definhar. 

Não há-de tardar.

Hei-de pegar no vestido e nas sandálias, e fazer do funeral uma festa.

 

 

Corredores estreitos fazem bons ciclistas

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Nas traseiras da casa da minha avó existe um corredor muito estreito. Tão estreito, que de braços abertos tocamos as duas paredes rugosas. Foi nesse corredor que passei grande parte da minha infância. A correr, a esfolar joelhos, a encarnar o Mourinho e a dizer aos meus primos como é que deviam jogar futebol. 

Certo Natal, os meus pais ofereceram-me uma bicicleta. Com rodinhas, que a propensão para esfolar joelhos já era inata, e não precisava de incentivo. Passava as tardes, para cá e para lá, na minha bicicleta azul, sem cestinho. Ainda hoje não lhes perdoei a falta do cesto. Onde é que uma mulher guarda os pertences quando vai dar uma volta ao corredor? 

Cada vez que chegava ao fim do caminho tinha de sair da bicicleta, levantá-la no ar, girá-la com cuidado para não lascar a tinta nas paredes, e seguir viagem, numa inversão de marcha feita à mão. Era mesmo, mesmo estreito.

Um dia, num acto de rebelião contra a opressão das rodinhas, chamei o filho da vizinha.

"Arranca-me lá isto daqui."

Embriegado pela sensação de poder que uma chave de fendas conferia a um miúdo de 8 anos, nem questionou se o que iria arrancar a seguir, seria a minha cara do chão. Fez-me a vontade. Ajudou-me a equilibrar-me, agarrou o selim até ordem contrária, empurrou-me ao de leve, e lá fui eu. 

Não demorou para percebermos que, com rodinhas ou sem rodinhas, despistar-me era uma missão impossível. Se me desiquilibrasse para a esquerda, uma parede agarrava-me. Se me desiquilibrasse para a direita, a outra parede também. Era o pesadelo de qualquer dentista.

Hoje, aquele corredor parece-me ainda mais pequeno, encolhido pelo tempo que passou por ele, e lhe levou as crianças e a tinta, que descasca a cada chuvada mais forte. São só duas paredes que ligam vidas vizinhas, e que estarão sempre ligadas à minha. É também uma metáfora perfeita do que aquele lugar reprensenta para mim.

Por muito que a vida me desiquilibre, ou que eu me desiquilibre com ela, ninguém ali me deixa cair. E se as forças me faltarem, braços não faltarão para me empurrarem em frente.

É um corredor estreito. Desagua numa imensurável largura de amor.

 

Era julho e ele prometeu-me

O meu avô tinha os olhos cor de amêndoa e as mãos ásperas, de dar arrepios. A vida de trabalho no campo tornou-o rígido, mas nunca amargo. Era doce. Como pêssegos no pico do verão. Quando se zangava, arregalava os olhos, como quem diz, sem dizer, "Queres ter problemas?" Não queríamos, obrigadinha. E cada um ia à sua vida, com a auréola de volta ao cocoruto.

Ensinou-me a nadar numa manhã de julho.

"Não te rales, que o avô não te larga."

Quando julho chega, as piscinas abrem, e os miúdos fazem procissões de mochila às costas, lembro-me dele. De quando fazíamos o mesmo caminho pela fresca, mala numa mão, eu na outra. 

"Cuidado com os carros. Anda pela beirinha."

O senhor ao portão a dizer para entrar, que filho da terra não paga. E a neta também não. O cheiro a cloro quando nos separávamos à entrada dos balneários, e o reencontro em frente ao mar azul que se podia arranjar.

Contou esta história até ao fim dos seus dias. Orgulhoso por me ter ensinado. Como se a sua existência precisasse de mais dádivas e não se sobrasse nela própria. De caminho, cumpriu pela vida toda, a promessa que me fez naquela manhã de verão. 

"O avô não te larga."

E nunca largou.

 

 

A minha mente chamou-me

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Chega aqui. Senta-te um bocadinho, que pareces cansada. Essa tua mania de te preocupares com cada minuto que não controlas, com cada passo que não dás com os teus pés, vai-te matar. Sabes disso, não sabes? Bem sei, bem sei. Sou eu que te conto coisas aos ouvidos. Que te digo que vai correr mal, e que as pessoas não gostam de ti. Mas, e então? Quem é que te fez tão insegura?

Deixa-te estar. Não vás já. Bebe um copo de água, e relaxa esses ombros. Sempre encolhidos, tolhidos, como se alguém te fosse atacar. Como se te tivesses de defender de alguma coisa. Irrita-me, que não saibas ter calma. Se te enervo? Enervo. Exijo-te alerta máximo a cada momento da tua existência, porque, minha menina, a vida não é fácil. Mas, e depois? Tens de ser assim tão fraca?

Não chores. Toma lá um lenço, vá. Não podes estar sempre a derramar lágrimas como se isto fosse uma tragédia. Certo. Não te deixo dormir, e quando me distraio e adormeces, invento pesadelos para acordares aflita. Pensas que és a única a ter pesadelos? Não és. Mas as pessoas acordam e vão à sua vida. Não é o fim do mundo.

Já vais? Pronto. Deixo-te ir. Não quero que digas que te prendo ou massacro. O que te digo é para o teu bem. Vai lá, que já te encontro. Vou estar no mesmo sítio, a contar-te as mentiras do costume.

 

A Senhora que proibiu a Rua Sésamo

A minha bisavó era torta. Andava direita, nós é que a olhávamos sempre de lado. Não era uma senhora doce. Carregava na idade as amarguras do mundo, e fazia questão que todos fôssemos, também, infelizes. Já lhe bastavam as roupas pretas, para fazê-la destuar.

Lembro-me dela como um borrão ao canto da sala dos meus avós. Rodava a casa dos filhos a cada mês, e quando o mês nos calhava, era como se nos preparássemos para uma festa. Mas ao contrário. A minha avó ficava refém da sogra, e a Rua Sésamo refém da censura dela. 

"Põe no noticiário. Baixa o som. A novela já deu?"

Sentava-me no sofá ao lado do cadeirão, o tédio a fazer-me batucar na madeira onde apoiava a cabeça. "Toc. Toc. Toc." Ouvia um suspiro, espreitava discreta, e se aqueles olhos fossem balas, eu não estava cá hoje.

"Oh, 'vó, quando é que a bisavó se vai embora?"

"No fim do mês, se Deus quiser." E eu tinha medo que Deus não quisesse.

Um dia fechou-se na casa de banho. "Mãezinha, não tranque a porta, que depois não a consegue abrir". Pobre avô. Até eu sabia que o melhor era dizer, que se trancasse. "Tranque-se. E de caminho, ponha um banquinho, para ninguém lhe conseguir chegar".

Em poucos minutos havia gritos. "Ai, que a fechadura não abre. Ai, que não saio daqui". O meu avô a mandá-la desviar-se da porta, para arrombá-la, ela a jurar que estava longe. A minha avó empoleirada no tanque de cimento para espreitá-la da janela, a confirmar, "Está colada à ombreira".

"Oh mãe, desvie-se da porta, pelo amor de Deus". 

"Oh filho, qual porta? Estou tão longe."

Foi até lhe dar a fome.

O mês passava tão lento quanto os passos que dava. Fazíamos fila atrás, porque à frente ia ela. Tomava banho cedo, jantava cedo, dormia cedo. Numa rigidez militar, para a qual todos falharam a recruta. A minha esperança chegava quando se ouvia "Já chamaste o carro?"

Ligava a televisão no botão grande, à direita, corria para o cadeirão e sorria. Já podia ver a Rua Sésamo, outra vez.

Os meus pensamentos não batem à porta

Falam muito alto e atropelam-se, como as famílias numerosas. Chegam de repente, como prenúncios do fim do mundo. Não pedem licença, nem autorização de residência. Arrombam a porta e desalinham a vida, como um furacão.

Às vezes demoram-se, e decidem que hoje vai correr tudo mal.

"Não penses que são coisas da tua cabeça. Que são. Mas hás-de ficar sem chão".

Outras vão, como vieram. Num sopro que derruba casas e corações, e deixam para trás o silêncio, que chega sempre, depois da destruição.

Fecho os olhos e respiro fundo. Tanto, como se quisesse açambarcar no peito todo o ar que existe no mundo. Desacelero o coração cansado, que não desiste mas reclama. Deixo o sangue voltar a correr, enquanto  tento apenas caminhar. Um passo de cada vez. Um dia de cada vez.

São eles que me desarrumam. Sou eu que sobro para me arrumar. 

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