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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Nó na garganta

É um nó.

Começa no peito, como uma moínha, uma dor fina que não chega a ser. Sobe a compasso pela traqueia e procura a laringe. Acomoda-se. Sinto-o a puxar uma cadeira, sorriso matreiro, e jornal na mão. Veio para se demorar.

Respiro fundo numa batalha antiga. As dores não me assustam, mas cansam. Percebo-o instável. Abano-lhe a cadeira, e sacudo-lhe o jornal das mãos. Pelo caminho, apago a luz, que são horas de dormirmos. Eu e o nó.

Deito-me com ele, sabendo que vai tornar tudo mais difícil. A noite mais longa. A respiração instável. Já o conheço. Não somos amigos, mas respeitamo-nos. Ele faz a parte dele. Angustiar-me. Eu, a minha. Resistir.

Passo a vida a desatar nós. Hei-de criar laços bonitos.

A beleza das coisas que são só coisas

A casa da minha avó tem dois tamanhos. É pequena hoje, mas de fazer inveja a castelos, quando eu era miúda. Mudou muito pouco, tirando as vidas que por lá passaram e deixaram de fazer dela paragem. 

A cozinha tem a mesma mesa verde. A madeira desfeita nos cantos que o deixaram de ser, não deixa mentir. É velha. Mesmo velha. O rádio do meu avô permanece no posto, agora calado. E o chão antigo aos losangos, num padrão gasto e  infinito, suporta dois bancos, que já tiveram muitas cores. Ali nada se desperdiça.

Um dos bancos sempre tilintou. Cada vez que lhe tocavam, sentia-se. Rodopiávamo-lo em manobras perigosas, e lá denunciava sons metálicos que nos intrigavam. Um dia, perguntámos à minha avó de que padecia o banco, para fazer tanto barulho.

"Sabem, há muitos anos, escorregou-me das mãos um anel de diamantes. Caiu dentro do banco, e está lá até hoje. É tão valioso, que nunca nos desfizemos dele."

Era um parafuso.

Cada vez que puxo o banco para me sentar e ouço aquele tinir, não vejo parafusos, vejo diamantes.

A minha avó nunca teve jóias, mas sempre teve esta capacidade bonita de fazer do que é mundano, divino. 

A noite em que Dawson's Creek foi máquina do tempo

1h47.

Mais uma noite a fugir à necessidade de dormir para sobreviver. Já vos disse que odeio dormir? Do scroll inútil no facebook, um vídeo sobre os momentos da Joey e do Pacey, começa sem eu pedir. Decido que o que preciso é de uma boa série sobre adolescentes para me esquecer que ser adulto não tem assim tanta graça.

O primeiro episódio de Dawson’s Creek começa como se nunca tivesse acabado, e eu ainda fosse miúda. Estou com eles a ver filmes no quarto enquanto temos conversas que ninguém tem aos 15 anos.

Passa o genérico e eu passo-me com ele. A música numa espécie de máquina do tempo, a transportar-me para a sala da minha avó, onde ainda existia a televisão velha com um comando gigante e quadrado, o sofá castanho que me acolheu um sem número de noites, o meu avô. Quando aquele genérico passava, o meu avô era carne, e osso, e respirava.

Chorei. Tanto, que duvidei ser eu a chorar, como se de uma experiência fora do corpo se tratasse. Fiz luto de mim própria, daquela miúda que carregava o peso do mundo, mas que ninguém via. Se pudesse tinha-lhe dado um abraço. Dizia-lhe para abraçar o avô, e para aguentar mais um bocadinho, porque a vida não são episódios de 45 minutos, mas anda lá perto.

No fim, antes de regressar, dava-lhe um caldo. Como é que podia achar que o Dawson era o amor da vida da Jo?

Ansiedade

O corpo humano é composto, em média, por 70% de água. Diria que substituí a água por medos e ansiedades. Nunca fui boa a hidratar-me. Não tenho memória de uma noite bem dormida ou de um dia sem sobressaltos infundados. E só me apercebi que a norma era anormal anos mais tarde, quando a ansiedade passou a ditar os passos que dava, as dores que tinha no corpo e os minutos que não me permitia ser. Simplesmente ser.

Viver comigo foi uma arte que nunca dominei. É irónico não saber estar com a pessoa com quem passo mais tempo.

Quando era miúda, os ataques de pânico eram manias de adolescente. Tanto que passavam, como todas as fixações que a adolescência nos traz. Mas o burburinho na mente, e os furacões no peito, persistiram. É a tua maneira de ser. E eu era, como podia.

Há 9 anos, estava na fila do supermercado e soube que ia morrer. Deixei de ver, de respirar, até o coração deixou de bater. E fugi. Num acto de desapego, as compras por registar ficaram abandonadas no tapete, e eu atirei a toalha ao chão. 

Não me lembro de chegar a casa, mas sei que essa viagem foi o início de outra. Penosa, confusa, mas, curiosamente, enriquecedora. Viver com a ansiedade a queimar nas veias, corrói, mas constrói. E eu ergo-me sempre mais forte, a cada tempestade.

O que é que se lê aqui?

Vida. Lê-se vida. A que se vive, e a que se sonha. Histórias que me construíram e outras que quero construir, mesmo que nunca passem de passagens guardadas num canto da internet.

Escrevo desde que me ensinaram que desenhar letras em papel, contava coisas. Umas vezes serviu de prazer, outras de terapia. Algumas era apenas um jogo engraçado, porque havia palavras que rimavam num cantar bonito.

E Leio. Leio muito. Porque quero que um dia digam que leram algo meu.

Vivo  numa ansiedade que grita presente a cada hora e fui descobrindo que falar sobre ela retira-lhe força. Contem, por isso, com ela aqui, numa partilha desnuda e sem filtros. Nem sempre vai ser bonito, mas espero que seja enriquecedor e se possa, cada vez mais, falar de saúde mental sem medo de rótulos toscos, quase sempre errados.

E se a vida é comigo, porque é que o nome é dela? Porque a minha avó Júlia é a bússola  com a qual encontro o norte. E se, nas histórias que conto a conseguir sempre encontrar em  mim, sei que vou ficar bem.

 

A Vida Com Júlia

Na casa da minha avó havia sempre gargalhadas e cheiro a café. Havia uma paz que balançava com as cortinas, na aragem fresca do fim de dia. As manhãs madrugavam sem preguiça ou pouca vontade. Era mais um dia que nascia só para sermos. Havia canteiros fartos de rosas que hoje trago na pele. Ela regava as flores que ele plantou e adubou. Eu empoleirava-me de pé descalço nos muros finos e brancos, com a certeza de que o mundo era um lugar feliz.

Na casa da minha avó havia sempre cor e calor. O sim era regra a todas as regras que tentava desafiar, e isso ensinou-me os limites ditados pelo amor. Os vizinhos diziam sempre bom dia, e eram família e ficavam. Os dias eram calmos na certeza que a noite traria o abrigo de um tecto suportado a afectos.

Na casa da minha avó havia sempre o sorriso dela. Mesmo quando a vida era só tão pouco, mesmo quando o sangue não servia de laço e se lassava, mesmo quando tudo doía, ruía, a Júlia sorria e eu dizia, um dia quero ser como ela.

Sobre mim

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Sou a Susana. Feita e guiada pelas emoções. Mais do que devia, mas não peço desculpa por sentir. E sinto muito. Vivo dias ansiosos, alguns de borboletas na barriga, a maioria, manda a patologia, de criaturas ferozes que me sugam a energia. Sou alegria. Mas esta vontade de ser e fazer mais, traz-lhe colado o peso das dúvidas que a mente inventa, do medo que não se envergonha e mina tudo. Nos dias mais difíceis, de pânico, dormência e cansaço, lembro-me dela. Da maneira como encara tudo sem se encolher, porque a vida é como tem de ser. Chora, pois chora. Mas não se demora. E segue caminho, sem olhar para trás. Foi onde deixou o que não lhe acrescenta. Sou a Susana. Na vida, estou a aprender ser mais Júlia.

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