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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Um cão a ladrar metáforas

Ontem à noite, o cão de um vizinho ladrou, incessantemente, durante três horas. Eu lia e ele ladrava, e eu lia a mesma frase outra vez, porque ele ladrava. Ficámos neste embalar ao contrário, quando a esperança se mistura com o desespero, e já não sabemos se somos feitos de coragem ou medo. Não sei quando se calou, tinha-me habituado ao latir compassado e resiliente, e foi só depois de um momento prolongado de silêncio que dei pela ausência de ruído.

Fechei o livro. Olhei o relógio. Duas da manhã e uma sensação de déjà-vu. O cão era a minha ansiedade. O ladrar insistente eram as dores, as dormências, as palpitações. A certeza de que nunca vai passar, e o momento efémero em que me apercebo que, há algum tempo, que passou, só para voltar novamente.

A minha ansiedade é um cão sozinho a meio da noite. Quer atenção. A minha atenção. E eu leio as mesmas frases do mesmo livro, repetidas e gastas, como o mal estar que me percorre o corpo. Aceito. Não porque não me ache capaz, mas porque coabitamos o mesmo espaço há tempo suficiente para saber que resistir-lhe, é prolongar um sofrimento que não falha, mas pode ser menor. 

A minha avó sempre me disse, os cães ladram e a caravana passa.

As boas famílias medem-se em revistas Maria

Não sabia bem onde começava e terminava a família. Diziam que o sangue era fórmula, mas nunca me serviu nos cálculos.

Às vezes chegavam visitas de surpresa. Tinham me dito que surpresas eram coisas boas, mas eu quando abria presentes não ficava com o ar desacorçoado da minha avó, quando abria a porta.

"Dá cá um beijinho à tia."

E eu ia beijar os pés da mesa, que não conhecia a senhora e não queria abrir precedentes. É que atrás dela, vinha outra.

"Lá está ela a brincar às escondidas."

Não estava a brincar, não. 

"Oh 'vó, posso ir à vizinha?"

E corria passeio abaixo. Abria o portão verde e entrava sem me anunciar. Não gritamos presente, cada vez que entramos em casa. Sentava-me na sala a ler revistas, à espera da minha vez de jogar naquela coisa que se ligava à televisão.

Um dia, de revista Maria na mão, entretive-me a ler o consultório sentimental. Achava muito estranho se escrever para uma revista a perguntar se se estava grávida, em vez de ir ao médico. Mas isso era eu. Entre várias questões, saltou-me à vista uma em particular, que me intrigou.

"Oh vizinha, o que é um orgasmo? Está aqui uma senhora a dizer que não tem."

O silêncio que se fez, só foi ultrapassado em dimensão pela gargalhada que lhe seguiu. Não aprendi, naquele dia, o que era aquilo que aquela senhora não tinha, mas soube que, família, é onde não temos medo de ser. Mesmo quando tropeçamos em perguntas difíceis.

Trago um bairro comigo

Era um bairro que fazia jus ao nome. Com vizinhos que se conheciam, e distribuíam  ramos de salsa, que apanhavam das hortas, ou ofensas e promessas de "se te apanho mato-te".

No verão, ao final do dia, juntavam-se ao fresco, com o chão de cimento ainda a emanar calor.

Eles falavam de uma coisa que era o Governo, e desabafavam que "assim não vamos lá". Eu não percebia bem onde é que era suposto irmos, mas esperava que não fosse para ir agora, porque aquelas noites eram as minhas preferidas.

Elas falavam das vizinhas que não estavam, e iam rodando a protagonista conforme a ausência de cada uma. "Isto somos só nós a conversar, han!". Acho que foi o primeiro eufemismo da minha vida.

Debruçavam-se nos muros sem nunca pisarem propriedade privada. Espalhavam-se pelo passeio, à luz dos candeeiros, e contavam vida. 

"Oh 'vó, posso comer um gelado?"

"Estás a fazer a digestão."

Odiava a digestão. Não me deixava fazer nada. Um dia parou e passei a dar-lhe valor.

Era um bairro, mesmo bairro. De casas baixas e pessoas altas. De portas sempre abertas, porque não se deixa a família na rua.  De jogos de bola com pé descalço, e joelhos esfolados. De irmãos, que eram filhos únicos.

Sobra pouco bairro, do tanto que o bairro foi, mas se fechar os olhos ainda lá estou. O chão está quente, as vozes misturam-se com o som dos grilos, e a minha avó disse para eu comer o gelado, porque já fiz a digestão. 

Entre um sofá e um cadeirão, matam-se saudades com um copo de vinho

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Está fresco, imagino. O Sol já se pôs, mas deixou para trás um filtro de luz que me deixa ver cada canto de cada canteiro. As flores envergonham-se, sem cor nem aroma, e o estendal vazio, corta ao meio aquele espaço que conheço inteiro.

A porta abre-se, e espreitas. Vestes as calças de fazenda cinzentas, demasiado vincadas, perfeitas. Tens o cabelo cortado e a pele menos enrugada, o andar mais recto, mais teu. Não falas, e isso aflige-me. Não te consigo falar, e isso aflige-me mais. Pousas o teu olhar em mim e percebo que devo entrar.

A sala tem mais luz, mas nunca muita. A mesa está posta e há o ruído de uma família grande num espaço pequeno, mas é como se os meus ouvidos estivessem tapados por um oceano. Passam-me pratos e garrafas de vinho pelos olhos. Sei que está frio, mas não o sinto. Não me cheira a nada, mas serves-te do tacho grande. Suponho que seja um dia solene, porque abriram a mesa, e há mais cadeiras do que aquelas que temos. 

Estou apertada a um canto, entre o sofá grande e o cadeirão. Parece Natal, mas não vejo árvore nem presentes. Tudo são vultos e sons indistintos. Menos tu. Pegas no copo de vinho e fazes-me sinal, como quem brinda ao infinito.

Acordo na dúvida se devo acender a luz, mas o Sol decide isso por mim. Fecho os olhos e brindo de volta. Há tanto tempo que não te via.

A janela que guardava o mundo inteiro

Para lá da porta da cozinha da casa da minha avó, havia aquilo a que se chamaria de anexo. Nós chamávamos-lhe barraca. Sempre fomos assim, despojados de realeza que fosse além da terrina antiga, em cima da mesa da sala, onde se guardavam as pastilhas elásticas.

À saída, aos pés do degrau, havia uma espécie de tapete alto em ferro, que me fazia sentir grande, como os grandes. E tropeçar.

"Vai devagar que cais."

E às vezes caía, mas nunca ia devagar.

Os alguidares de roupa no tanque cinzento, e os sapatos lavados com Sonasol, na altura em que Sonasol era tudo o que havia e nada cheirava assim. O avô a fazer copos das garrafas de Sumol. O Sol a queimar o chão que me escaldava os pés, enquanto saltitava para aliviar o ardor.

"Calça-te."

E eu fingia que não era comigo. Não ia agora sujar os sapatos.

Ao fundo, quase encostada ao tecto, por cima de uma mesa larga de madeira, havia uma janela velha. Lavada com o tempo. O fecho lasso, a pedir-me que o libertasse.

"Avó, para onde dá aquela janela?"

"Para onde quiseres." 

Dava para a parede da vizinha. Nem sequer era uma parede bonita, rebocada, pintada. Era tijolo e cimento. Sem preceito. Como se soubessem que nunca ninguém duvidaria, a ponto de querer confirmar, que além daquela janela, o mundo era o que nós imaginássemos ser.

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