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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

A Senhora que proibiu a Rua Sésamo

A minha bisavó era torta. Andava direita, nós é que a olhávamos sempre de lado. Não era uma senhora doce. Carregava na idade as amarguras do mundo, e fazia questão que todos fôssemos, também, infelizes. Já lhe bastavam as roupas pretas, para fazê-la destuar.

Lembro-me dela como um borrão ao canto da sala dos meus avós. Rodava a casa dos filhos a cada mês, e quando o mês nos calhava, era como se nos preparássemos para uma festa. Mas ao contrário. A minha avó ficava refém da sogra, e a Rua Sésamo refém da censura dela. 

"Põe no noticiário. Baixa o som. A novela já deu?"

Sentava-me no sofá ao lado do cadeirão, o tédio a fazer-me batucar na madeira onde apoiava a cabeça. "Toc. Toc. Toc." Ouvia um suspiro, espreitava discreta, e se aqueles olhos fossem balas, eu não estava cá hoje.

"Oh, 'vó, quando é que a bisavó se vai embora?"

"No fim do mês, se Deus quiser." E eu tinha medo que Deus não quisesse.

Um dia fechou-se na casa de banho. "Mãezinha, não tranque a porta, que depois não a consegue abrir". Pobre avô. Até eu sabia que o melhor era dizer, que se trancasse. "Tranque-se. E de caminho, ponha um banquinho, para ninguém lhe conseguir chegar".

Em poucos minutos havia gritos. "Ai, que a fechadura não abre. Ai, que não saio daqui". O meu avô a mandá-la desviar-se da porta, para arrombá-la, ela a jurar que estava longe. A minha avó empoleirada no tanque de cimento para espreitá-la da janela, a confirmar, "Está colada à ombreira".

"Oh mãe, desvie-se da porta, pelo amor de Deus". 

"Oh filho, qual porta? Estou tão longe."

Foi até lhe dar a fome.

O mês passava tão lento quanto os passos que dava. Fazíamos fila atrás, porque à frente ia ela. Tomava banho cedo, jantava cedo, dormia cedo. Numa rigidez militar, para a qual todos falharam a recruta. A minha esperança chegava quando se ouvia "Já chamaste o carro?"

Ligava a televisão no botão grande, à direita, corria para o cadeirão e sorria. Já podia ver a Rua Sésamo, outra vez.

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