A Vida Com Júlia
Na casa da minha avó havia sempre gargalhadas e cheiro a café. Havia uma paz que balançava com as cortinas, na aragem fresca do fim de dia. As manhãs madrugavam sem preguiça ou pouca vontade. Era mais um dia que nascia só para sermos. Havia canteiros fartos de rosas que hoje trago na pele. Ela regava as flores que ele plantou e adubou. Eu empoleirava-me de pé descalço nos muros finos e brancos, com a certeza de que o mundo era um lugar feliz.
Na casa da minha avó havia sempre cor e calor. O sim era regra a todas as regras que tentava desafiar, e isso ensinou-me os limites ditados pelo amor. Os vizinhos diziam sempre bom dia, e eram família e ficavam. Os dias eram calmos na certeza que a noite traria o abrigo de um tecto suportado a afectos.
Na casa da minha avó havia sempre o sorriso dela. Mesmo quando a vida era só tão pouco, mesmo quando o sangue não servia de laço e se lassava, mesmo quando tudo doía, ruía, a Júlia sorria e eu dizia, um dia quero ser como ela.
