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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Corredores estreitos fazem bons ciclistas

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Nas traseiras da casa da minha avó existe um corredor muito estreito. Tão estreito, que de braços abertos tocamos as duas paredes rugosas. Foi nesse corredor que passei grande parte da minha infância. A correr, a esfolar joelhos, a encarnar o Mourinho e a dizer aos meus primos como é que deviam jogar futebol. 

Certo Natal, os meus pais ofereceram-me uma bicicleta. Com rodinhas, que a propensão para esfolar joelhos já era inata, e não precisava de incentivo. Passava as tardes, para cá e para lá, na minha bicicleta azul, sem cestinho. Ainda hoje não lhes perdoei a falta do cesto. Onde é que uma mulher guarda os pertences quando vai dar uma volta ao corredor? 

Cada vez que chegava ao fim do caminho tinha de sair da bicicleta, levantá-la no ar, girá-la com cuidado para não lascar a tinta nas paredes, e seguir viagem, numa inversão de marcha feita à mão. Era mesmo, mesmo estreito.

Um dia, num acto de rebelião contra a opressão das rodinhas, chamei o filho da vizinha.

"Arranca-me lá isto daqui."

Embriegado pela sensação de poder que uma chave de fendas conferia a um miúdo de 8 anos, nem questionou se o que iria arrancar a seguir, seria a minha cara do chão. Fez-me a vontade. Ajudou-me a equilibrar-me, agarrou o selim até ordem contrária, empurrou-me ao de leve, e lá fui eu. 

Não demorou para percebermos que, com rodinhas ou sem rodinhas, despistar-me era uma missão impossível. Se me desiquilibrasse para a esquerda, uma parede agarrava-me. Se me desiquilibrasse para a direita, a outra parede também. Era o pesadelo de qualquer dentista.

Hoje, aquele corredor parece-me ainda mais pequeno, encolhido pelo tempo que passou por ele, e lhe levou as crianças e a tinta, que descasca a cada chuvada mais forte. São só duas paredes que ligam vidas vizinhas, e que estarão sempre ligadas à minha. É também uma metáfora perfeita do que aquele lugar reprensenta para mim.

Por muito que a vida me desiquilibre, ou que eu me desiquilibre com ela, ninguém ali me deixa cair. E se as forças me faltarem, braços não faltarão para me empurrarem em frente.

É um corredor estreito. Desagua numa imensurável largura de amor.

 

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