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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

LR-76-23

O meu avô tinha uma lambreta verde, que um dia pintou à trincha. Ficou um trabalho lindo. Para um cego. Ele encolhia os ombros. O que lhe saía caro em piadas, saía-lhe barato em tinta. Tinha capacete a condizer, verde-esmeralda, de fábrica. Poupou-lhe as pinceladas. Por baixo, duas tiras seguravam-lhe o queixo, que raramente caía. Já tinha visto de tudo.

Eu adorava a lambreta. Quando ela estava parada. Desde miúda, que aquela ideia de fazer piscas com os braços não me parecia genial. 

"E se te desequilibras?"

"Agarra-te ao avô, que não cais."

E isso não me descansava. Porque se ele caísse, caíamos os três. Eu, ele e a lambreta.

A direito a viagem fazia-se. Era nas curvas que me tremiam as pernas. Quando via uma a chegar, fechava os olhos com  muita força, e só não rezava porque não sabia rezar. Sentia o corpo a pender para um lado, depois para o outro. Quando me percebia na vertical, abria um olho, à cautela. A estrada estava onde devia estar, e eu relaxava as mãos, para as cerrar logo a seguir. Estava ali mais uma curva.

Subíamos o caminho para casa. Coisa rápida. E, apesar da sensação de que o mais certo era cair para trás e dar, finalmente, a cambalhota invertida que me andavam a cobrar há anos nas aulas de educação física, seguia mais tranquila. O trilho íngreme não permitia velocidades de maior. E, em boa verdade, a lambreta também não.

Um dia o meu avô vendeu a lambreta. Trinta contos. Não disse nada a ninguém. Foi aí que percebi que, mais tarde ou mais cedo, haveria de ficar sem os dois. 

Gosto de pensar que, algures, noutra estrada qualquer, uma miúda agarra-se ao seu avô, em cima de uma lambreta verde, de pintura duvidosa. Se pudesse falar-lhe, dizia-lhe:

"Podes ter medo. Mas não feches os olhos nas curvas. Não vais querer perder nem um segundo dessa vossa viagem."

Eu perdi.

 

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