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Hás-de chegar sem que eu me aperceba.
Leve, como uma brisa. A contrastar com todas as tormentas que desalinharam o meu coração. Vais saber que sou eu, sem que eu adivinhe que, um dia, seremos nós.
Chamarás o rio para servir de testemunha, e assentarás raízes onde as minhas já são fundas. Não me vais querer mudar. E eu, eu vou gostar de ti assim.
Às vezes, o meu cansaço vai te cansar. Porque me queres bem, e feliz, e sem martírios a ruminar no peito. E eu vou encolher os ombros, e ser triste um bocadinho, porque também é preciso. Uma tristeza velada, atenuada, selada com o teu beijo.
Seguiremos pela vida de dedos e existência entrelaçados. Vamos discurtir, porque dizem que faz parte, e nós não deixamos parte nenhuma por viver. Vamos fazer as pazes, porque para sempre é muito tempo, e ninguém sobrevive ao infinito, zangado.
Um dia, com o Sol a beijar as Lezírias, vais-me olhar de soslaio. Eu vou estar distraída, como daquela vez em que chegaste. E vais sorrir, porque me encontraste. Eu, perdida na minha existência multiplicada, vou continuar a não acreditar na sorte que tive quando decidiste procurar-me.
Hás-de chegar sem que eu me aperceba. É por isso que espero serena.
