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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Natal passado, presente

É véspera de Natal.

Abro a porta, ao final da tarde. A avó dorme no silêncio de uma casa construída a várias vozes. Pouso o bacalhau e o bolo rei na mesa que nos acolheu tantas vezes, e espreito o quarto, vazio do meu avô. A cama está feita desde que partiu, como se desmanchá-la, fosse desmachar memórias e afectos. Sinto muitos olhos  em mim. Estão por toda a parte, emoldurados no tempo em momentos perfeitos. Sento-me, e fecho os meus.

É cedo e está escuro. Chove. Engana-se o frio com camisas de flanela e camisolas de lã. As luzes da cozinha estão acesas a par com os bicos do fogão. Há batatas por descascar e arroz doce por decorar. A vizinha trouxe couves que a horta dispensou e desejos de uma noite feliz.

No quarto, um alguidar acolhe a massa dos sonhos, aconchegada com um cobertor laranja. O pinheiro ilumina a sala enquanto abriga os presentes empilhados há dias, sobreviventes à curiosidade. A mesa desdobra-se e fica maior. Insuficiente no tamanho, mas sempre suficiente na boa vontade. Improvisam-se bancos onde o amor é regra e joga-se à bola no quintal, porque é Natal e hoje o avô não se importa.

A avó conta os pratos. O tio conta histórias. Cheira a fritos e a bacalhau. As vozes atropelam-se e enchem a casa. Abre-se caminho para as travessas, atribuem-se lugares ao acaso e abrem-se as garrafas de vinho. Jantamos juntos numa casa pequena que acolhe o mundo. O meu mundo.

Abro olhos.

Sei que é Natal, mas a mesa está vazia e as luzes apagadas. Os estores estão corridos, e o tio não tem histórias para contar. É Natal, mas o fogão não arde e a vizinha não bateu à porta. Não cheira a fritos e o vinho está fechado. Bem sei, é Natal, mas o avô não apareceu vestido a preceito e o alguidar dos sonhos está vazio. A bola está guardada a um canto, e a avó deixou de contar os pratos. 

Fecho a porta com cuidado e devagar, como quem tranca um tesouro.

Levo o Natal no peito.

 

No primeiro dia de escola

Era setembro, e eu sabia escrever as letras do meu nome. A minha avó dizia para me deixarem brincar, mas eu já estava perdida entre cadernos e canetas, e se a escola fosse em casa, podia começar já. O meu avô comprou-me uma mochila da Ambar, na loja da Dona Nana. Era roxa e verde, e custou-lhe cinco contos. E o miúdo da vizinha estava avisado para olhar por mim. 

A manhã chegou devagar, mas mais depressa do que todas as outras. As rolas cantavam para me despertar, e a cortina branca e rendilhada, fazia questão de não fintar a luz, para iluminar tudo o que era. Foi a primeira vez que não me quis levantar.

O avô já tinha saído, e a avó já tinha bebido o café. O dia corria igual, banal, mas estava tudo diferente. Foi nessa tarde, a subir a encosta que ia dar à escola, com a minha mochila roxa e verde às costas, que o mundo deixou de ser só flores e cimento quente, figos caídos e pombos corridos. Descobri que o mundo era maior. Mas o meu era melhor.

 

É o espelho de outra parede qualquer

Às vezes fixo um ponto na parede e fico a olhá-lo, como se me visse. A altura é a minha, mas mais altiva, e os dedos finos têm mais firmeza. O cabelo alourado não tem pontas soltas, e sabe bem com que linhas se amarra. O nariz é igual, pequeno, mas ascendente, como se fosse o primeiro a chegar, quando chego. Trago debaixo do braço folhas soltas, escritas à mão. Letra perfeita, tinta preta. Detesto tinta preta.

"Sabia que ia chegar o dia."

É tudo o que consigo ler, por entre um cotovelo e uma costela. Suponho que chegue. Que aquele ponto na parede seja espelho de outra parede qualquer. Que me espera. Que me reflecte inteira, com medos e sonhos, desmedidos na mesma medida. 

"Sei que o dia há-de chegar."

A letra vai ser perfeita, mas a tinta será azul.

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Hás-de chegar sem que eu me aperceba.

Leve, como uma brisa. A contrastar com todas as tormentas que desalinharam o meu coração. Vais saber que sou eu, sem que eu adivinhe que, um dia, seremos nós.

Chamarás o rio para servir de testemunha, e assentarás raízes onde as minhas já são fundas. Não me vais querer mudar. E eu, eu vou gostar de ti assim. 

Às vezes, o meu cansaço vai te cansar. Porque me queres bem, e feliz, e sem martírios a ruminar no peito. E eu vou encolher os ombros, e ser triste um bocadinho, porque também é preciso. Uma tristeza velada, atenuada, selada com o teu beijo.

Seguiremos pela vida de dedos e existência entrelaçados. Vamos discurtir, porque dizem que faz parte, e nós não deixamos parte nenhuma por viver. Vamos fazer as pazes, porque para sempre é muito tempo, e ninguém sobrevive ao infinito, zangado.

Um dia, com o Sol a beijar as Lezírias, vais-me olhar de soslaio. Eu vou estar distraída, como daquela vez em que chegaste. E vais sorrir, porque me encontraste. Eu, perdida na minha existência multiplicada, vou continuar a não acreditar na sorte que tive quando decidiste procurar-me.

Hás-de chegar sem que eu me aperceba. É por isso que espero serena.

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