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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Amor xadrez

Doze bolos xadrez.

Haverá quem diga que é açúcar a mais. Que ninguém precisa de doze bolos xadrez. Um por dia, à mesma hora. Depois de almoço, antes da praia. 

"Era um bolo xadrez para a menina."

Doze actos de amor.

Ninguém se queixa de amor em demasia. Todos precisamos de doze actos de amor e mais alguns, muitos. Vários por dia. 

Durante doze dias, o bolo xadrez foi servido num prato de amor, e eu demorei anos a perceber, que o prato era mais doce que o bolo.

Passamos anos a achar que não nos amam, para descobrirmos que o amor estava ali, nos quadrados de pão de ló colados a chantilly. 

Às manhãs felizes, de vestidos brancos, frescos, que a tia bordou

Vestiram-te o vestido branco, fresco, que a tia bordou. Deixaram-te descalça, porque ias descalçar-te. O chão está quente como a tua alma. Refrescas-te no meio das flores e da terra molhada. Foi regada a mangueira na sombra da manhã, que ainda é menina como tu.

De cócoras, observas as formigas a fugirem dos pequenos rios que a rega formou. Umas em fila, outras desnorteadas numa correria desbotada. Se fosses formiga, eras das que corria sem destino.

“‘vó, porque é que as formigas correm?”
“Porque têm pressa.”
“Eu também tenho pressa, ‘vó.”

E corrias. À volta do quintal e da cana que segurava o estendal. Imaginavas que os canteiros eram trapézios, e percorria-los num equilíbrio tosco, imaginando que se caísses, era uma queda sem fim. Paravas, de repente, junto ao ralo. Olhavas a flor que se formava no cimento húmido, o Sol a fazer desaparecer as imagens que a água desenhou.

Penduravas-te no portão e pedias que te empurrassem, para lá e para cá, num embalo que não adormece a vontade.

“Não faças isso, que me dás cabo do portão.”
“Estou a voar, avô.”

E inclinavas a cabeça para trás, a apreciar a viagem, mesmo que a aragem não chegasse para ter nome de sopro.

Ao fim da manhã já tinhas mais pedrinhas presas nos pés, que horas no dia. Sentavas-te no degrau de mármore gelado, empoleiravas um pé no joelho oposto, e esfregavas a poeira que te passava para as mãos, e que acabava, inevitavelmente, no vestido branco, fresco, que a tia bordou.

Antes que te ralhassem, anunciavas:

"'vó, sujei-me a brincar!"

Que nunca ninguém condene a liberdade de uma manhã feliz.

Um cão é para estar no coração

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Sentava-se no cadeirão ao canto da sala, manta pelas pernas, que a casa era fria. Olhava de soslaio e abanava a cabeça:

"Um cão é para estar na rua, não é dentro de casa."

"Não digas isso avô, é pequenino."

Como se percebesse que o defendiam, empinava o nariz comprido, analisava as opções que tinha para chegar aos biscoitos, e escolhia o caminho mais longo que evitasse contacto com o meu avô.

Não se podiam ver. Nem queriam.

Uns anos mais tarde o meu avô adoeceu. O Sid deixou de escolher caminhos que não os cruzassem. Pedia para o deixarem subir à cama, enroscava-se aos seus pés, e só o deixou quando ele nos deixou também.

Na noite em que partiu, enquanto lhe fazia as últimas festas na cabeça, enrosquei-me aos pés dele e disse-lhe que estava tudo bem, porque o avô tinha ido primeiro e estava à espera dele.

Se calhar vai implicar quando ele lhe tentar destruir o enleio, que por esta altura já deve estar enorme. Ou perder a paciência quando ele ladrar a pedir-lhe bolachas. Dúvido que lhe aqueça o saco de água quente nas noites mais frias. Mas tenho a certeza que vai deixá-lo dormir dentro de casa, em cima da mesma cama, enroscado aos seus pés, como da última vez que fizeram os dois parte da mesma realidade. 

Afinal, é isso que fazemos quando nos amam sem condição.

Natal passado, presente

É véspera de Natal.

Abro a porta, ao final da tarde. A avó dorme no silêncio de uma casa construída a várias vozes. Pouso o bacalhau e o bolo rei na mesa que nos acolheu tantas vezes, e espreito o quarto, vazio do meu avô. A cama está feita desde que partiu, como se desmanchá-la, fosse desmachar memórias e afectos. Sinto muitos olhos  em mim. Estão por toda a parte, emoldurados no tempo em momentos perfeitos. Sento-me, e fecho os meus.

É cedo e está escuro. Chove. Engana-se o frio com camisas de flanela e camisolas de lã. As luzes da cozinha estão acesas a par com os bicos do fogão. Há batatas por descascar e arroz doce por decorar. A vizinha trouxe couves que a horta dispensou e desejos de uma noite feliz.

No quarto, um alguidar acolhe a massa dos sonhos, aconchegada com um cobertor laranja. O pinheiro ilumina a sala enquanto abriga os presentes empilhados há dias, sobreviventes à curiosidade. A mesa desdobra-se e fica maior. Insuficiente no tamanho, mas sempre suficiente na boa vontade. Improvisam-se bancos onde o amor é regra e joga-se à bola no quintal, porque é Natal e hoje o avô não se importa.

A avó conta os pratos. O tio conta histórias. Cheira a fritos e a bacalhau. As vozes atropelam-se e enchem a casa. Abre-se caminho para as travessas, atribuem-se lugares ao acaso e abrem-se as garrafas de vinho. Jantamos juntos numa casa pequena que acolhe o mundo. O meu mundo.

Abro olhos.

Sei que é Natal, mas a mesa está vazia e as luzes apagadas. Os estores estão corridos, e o tio não tem histórias para contar. É Natal, mas o fogão não arde e a vizinha não bateu à porta. Não cheira a fritos e o vinho está fechado. Bem sei, é Natal, mas o avô não apareceu vestido a preceito e o alguidar dos sonhos está vazio. A bola está guardada a um canto, e a avó deixou de contar os pratos. 

Fecho a porta com cuidado e devagar, como quem tranca um tesouro.

Levo o Natal no peito.

 

No primeiro dia de escola

Era setembro, e eu sabia escrever as letras do meu nome. A minha avó dizia para me deixarem brincar, mas eu já estava perdida entre cadernos e canetas, e se a escola fosse em casa, podia começar já. O meu avô comprou-me uma mochila da Ambar, na loja da Dona Nana. Era roxa e verde, e custou-lhe cinco contos. E o miúdo da vizinha estava avisado para olhar por mim. 

A manhã chegou devagar, mas mais depressa do que todas as outras. As rolas cantavam para me despertar, e a cortina branca e rendilhada, fazia questão de não fintar a luz, para iluminar tudo o que era. Foi a primeira vez que não me quis levantar.

O avô já tinha saído, e a avó já tinha bebido o café. O dia corria igual, banal, mas estava tudo diferente. Foi nessa tarde, a subir a encosta que ia dar à escola, com a minha mochila roxa e verde às costas, que o mundo deixou de ser só flores e cimento quente, figos caídos e pombos corridos. Descobri que o mundo era maior. Mas o meu era melhor.

 

É o espelho de outra parede qualquer

Às vezes fixo um ponto na parede e fico a olhá-lo, como se me visse. A altura é a minha, mas mais altiva, e os dedos finos têm mais firmeza. O cabelo alourado não tem pontas soltas, e sabe bem com que linhas se amarra. O nariz é igual, pequeno, mas ascendente, como se fosse o primeiro a chegar, quando chego. Trago debaixo do braço folhas soltas, escritas à mão. Letra perfeita, tinta preta. Detesto tinta preta.

"Sabia que ia chegar o dia."

É tudo o que consigo ler, por entre um cotovelo e uma costela. Suponho que chegue. Que aquele ponto na parede seja espelho de outra parede qualquer. Que me espera. Que me reflecte inteira, com medos e sonhos, desmedidos na mesma medida. 

"Sei que o dia há-de chegar."

A letra vai ser perfeita, mas a tinta será azul.

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Hás-de chegar sem que eu me aperceba.

Leve, como uma brisa. A contrastar com todas as tormentas que desalinharam o meu coração. Vais saber que sou eu, sem que eu adivinhe que, um dia, seremos nós.

Chamarás o rio para servir de testemunha, e assentarás raízes onde as minhas já são fundas. Não me vais querer mudar. E eu, eu vou gostar de ti assim. 

Às vezes, o meu cansaço vai te cansar. Porque me queres bem, e feliz, e sem martírios a ruminar no peito. E eu vou encolher os ombros, e ser triste um bocadinho, porque também é preciso. Uma tristeza velada, atenuada, selada com o teu beijo.

Seguiremos pela vida de dedos e existência entrelaçados. Vamos discurtir, porque dizem que faz parte, e nós não deixamos parte nenhuma por viver. Vamos fazer as pazes, porque para sempre é muito tempo, e ninguém sobrevive ao infinito, zangado.

Um dia, com o Sol a beijar as Lezírias, vais-me olhar de soslaio. Eu vou estar distraída, como daquela vez em que chegaste. E vais sorrir, porque me encontraste. Eu, perdida na minha existência multiplicada, vou continuar a não acreditar na sorte que tive quando decidiste procurar-me.

Hás-de chegar sem que eu me aperceba. É por isso que espero serena.

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