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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Quero saber

Revirei-me do avesso, despi-me de dentro para fora. Quero saber de onde vem isto de sentir tanto. Em demasia, para o pouco que um só peito suporta. Quero saber. Quem me tornou cativa do meu coração. A contar-lhe batidas, anseios, corridas. Ao menos que me fizessem maior. Ou dividissem as penas por mais prisioneiros. 

Fiz contas ao que tenho, e sobrou-me saudade. É o troco que se leva quando se sente. E eu já disse que sinto muito. Não tenho porta-moedas para tanto sobejo. Às vezes, deixo-as cair. Copiosamente, como chuva em dezembro. Depois resto-me a mim para as apanhar, secar, guardar.

Viver cá dentro é conviver com tudo o que foi, e tudo o que será. Estou cansada de não ter espaço definitivo no tempo. Quero saber o agora. 

Quero saber. 

 

Está tudo bem

Sei que estás acordada, apesar das horas. Amanhã tens escola, devias descansar. Deixa de olhar as cortinas, até ter passado tanto tempo, que as formas vão mudando de forma. E se apagasses a luz? Esse livro encostado ao candeeiro, para fazer sombra, não é igual à paz de um quarto escuro. Deixa de olhar o abajur e fingir que é um acordeão a embalar-te as noites. Fecha só os olhos.

Sei que não queres dormir, apesar do sono te pesar as pálpebras, e o cansaço te minar o corpo pequeno. Larga os livros que fazem pilha ao lado da cama. Podem fazer-te companhia fechados, despojados da tua atenção. Fecha os olhos e inventa uma história feliz. Diferente das que te contas todos os dias. Descansa.

Eu sei. Eu sei que queres velar o corredor escuro, para antecipar a escuridão. Que o medo atenuado pela luz, é medo à mesma e não te deixa dormir. Eu sei que contas os segundos, num dueto perfeito com os ponteiros do relógio. Como se contar o tempo, fizesse o tempo passar mais rápido. Pára. Por favor, fecha os olhos. Está tudo bem. São muitas noites mais tarde, e está tudo bem.

 

Um copo de tinto e saudade

Havia cavalos no Tejo, a refrescarem um dia de verão. Pessoas na rua, a fazerem dela o que ela era antigamente. A brisa era quente, como o calor daquela gente. Ao canto, sentado num muro branco, a condizer com a camisa, estavas tu. Cabelo ainda negro, como as azeitonas que apanhávamos nos finais de tarde, de cada outono. 

"Não chego lá, avô. Não chego!"

Continuavas a tarefa comigo às cavalitas. Mais azeitonas no chão, que na saca. Mais amor, sempre.

Estavas, à conversa, debaixo da única sombra que existia. Rias. Muito e alto. Não me viste e não fez mal. Encheste o copo de vinho e brindaste à vida.

Cada vez que o peito aperta e tudo aflige e dói, esperas que durma e apareces. Tu e o copo de tinto. A lembrar-me que quando ele está vazio, somos nós que o temos de encher. À sombra de um dia de Sol, na margem do rio que somos, nas gargalhadas antigas de um amor que é para sempre.

Até ao próximo brinde.

 

Se puderes, desculpa-me

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Desculpa.

Devias ter podido dormir sem o peso de ouvir tudo o que a noite grita. Eras pequena, sem tamanho para o medo que te habitava. Então, ele engoliu-te, misturou-se em ti até serem a mesma coisa. De luz acesa, porque o escuro desafiava-te a coragem, fingias que lias enquanto pedias. Pedias que a manhã chegasse tranquila, mesmo que amanhecesses exausta.

Desculpa.

Devias ter podido brincar sem saber que coisas más acontecem. E rir, e correr, e estar em ti sem pensar que as pessoas vão embora, e que choram e que há coisas cruéis dentro delas, que não são culpa tua. Não tinhas culpa. Ouviste? Nunca tiveste culpa.

Desculpa.

Devias ter podido crescer a saber o teu tamanho. Já eras tão grande, mesmo quando a altura não combinava. Deviam ter-te contado coisas boas sobre ti, para, quando daquela vez que te disseram que eras nada, saberes que te mentiam. Mentiram-te, porque eras tudo. As pessoas têm medo de pessoas que são tudo.

Desculpa.

Devias ter podido viver para ti, sem a sentença de cuidar. Porque se não cuidasses iam embora, porque se não te desses e te esgotasses nos outros, ficavas sem os outros e sem ti. E depois? O que é se faz quando não somos?

Desculpa. 

A ti. A mim. A nós, que sou só eu. Desculpa. 

Se caíres, não te demores

"Ai, minha rica filha."

Era assim, de sobressalto na voz e mãos na cabeça, como quem vê a desgraça a passar-lhe rente ao peito, que a minha avó reagia quando me via cair.

Com mais ou menos sangue, mais ou menos lágrimas, o aparato era igual. Nem maior, nem mais pequeno.

"Ai, minha rica filha."

Corria até mim, levantava-me, sacudia-me o vestido, e limpava-me as feridas, se as havia. Depois voltava serena ao que estava a fazer, enquanto anunciava que aquilo não era nada e eu, que fosse à minha vida.

Foi assim pelos anos fora. Condoída por me ver sofrer, mas logo pronta a desfazer os nós que às vezes eu própria emaranhava. É um desapego apegado de quem sabe que tudo se perde, e não há tempo a perder.

Cada vez que me desiquilibro e esfolo os joelhos da alma na vida, ouço-lhe o grito, e sei que, a seguir, vai ficar tudo bem.

Um. Dois. Três.

Uma noite destas, enroscada na ponta da cama, tremia. A desejar que fosse dia, dei por mim a dar três palmadinhas na perna. 

Quando era pequena, e o colo da minha avó ainda me albergava inteira, era assim que me recebia. Um, dois, três. Três pancadinhas. Demasiado fortes para me embalarem, mas que, sem chegarem a magoar, me serenavam.

Durante toda a vida, e até hoje, que já não tenho tamanho para o tamanho que o colo dela tem, é assim que quebra os meus silêncios, mesmo que continue calada.

Mãos encolhidas pela idade que estica, chega-se a mim com um sorriso e cumpre o ritual. Uma espécie de trilogia de amor, a contar-me, três vezes, que há-de ficar tudo bem. Mesmo que agora esteja tudo mal.

Um. Dois. Três.

 

 

A alma também dói

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Chamam-lhe cão negro, mas eu tenho um e gosto muito dele. Em boa verdade, este morde, rasga a pele. O meu só me rosna quando não está satisfeito, mas não somos todos um bocadinho assim? Se tivesse de dar-lhe um nome, chamava-lhe dor de alma. Porque a alma não tem forma, e esta dor também não.

"O que é que sentes?"

Nada. Um nada que desagua num mar salgado de lágrimas, que é a forma que a alma tem de sangrar. E não há compressas nem pensos rápidos que estanquem olhos que nos derramam. De dentro para fora. Como se fôssemos um copo, e transbordar fosse a única forma de não partirmos.

Então estalamos. Lascamos, aqui e ali. Vamos ensaiando sorrisos como paliativos, mais para os outros do que para nós.

"O que é que sentes?"

Tudo. Como se todas as dores do mundo fizessem morada em nós. E queremos fugir, e dizer que não moramos aqui. Fazer as malas e metermo-nos ao caminho. "Volte mais tarde que agora não está ninguém". Mas está. Estamos. Nunca ninguém conseguiu fugir de si.

Então ficamos. Doemos. Gritamos com o rosto contra a almofada, porque são dores que não têm escala, nome, entendimento. Doem, apenas.

Se tivesse de dar-lhe um nome, chamava-lhe dor de alma. É que quando a alma dói, não há nada que não nos doa.

O meu sítio calmo é uma canção numa noite de verão

Quando penso num dia calmo, é verão e corre uma brisa fresca que não chega para me desalinhar os cabelos. O anoitecer demora e enamora, como um filtro de luz que nos embala.

Quando tudo é turbilhão, penso na aragem que me sopra a nuca e no arrepio que me percorre a espinha.

"Vai para o teu sítio calmo."

É tarde, mas não sei as horas. O pátio, ainda despido de telhas, é iluminado por uma Lua que só pode estar cheia, e varrido por um vento que mal chega a sê-lo. As lágrimas molham-me o vestido fino e o mau estar percorre-me o corpo. Bebo água fresca com bolhas que me fazem cócegas na língua. "Bebe que já passa. Já passa." 

Ergue-me no ar e repousa-me  nos ombros. Encosto o rosto molhado aos cabelos finos, alourados como os meus, enquanto lhe laço o pescoço. Cheira ao champô que dividimos. Caminha, para lá e para cá, num passo sereno que me acalenta. Baixinho, quase num susurro envergonhado, canta.

"Menina estás à janela, com o teu cabelo à Lua..."

Quando a vida é tormenta e agitação, e respirar é em vão, eu fecho os olhos. Sinto o frio glorioso de uma noite de verão, a luz de uma Lua que se encheu num balão, o balançar suave de um caminhar sem razão.

E, enfim, canto a canção. 

Estou presa como um lírio num botão

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O quintal da minha avó tinha canteiros fartos, num emaranhado de espécies que coloria a casa e a vida. No canteiro do lado esquerdo, assim que se pisava a rua, existia um ramo imenso de lírios brancos. Fazia dos botões microfones, do cimento o meu palco, e dançava ao som da música que só eu ouvia na minha cabeça. Rodava, repetidamente, sobre o meu corpo num desfecho antecipado pelo meu avô, que me sacudia depois as pedrinhas dos joelhos e me mandava seguir, que é o que se faz quando a contra-ordenação não é grave.

Agora os canteiros sobram terra vazia, e há, aqui e ali, uma flor ou outra, como que a avisar quem passa, que nem tudo por lá morreu. Os lírios mudaram de cor e agora são amarelos, numa espécie de ode à inocência que se perdeu, entre os meus concertos de improviso, e o agora, que me parece tão ou mais improvisado.

Pedi um lírio à minha avó e coloquei-o na cabeceira. Reparei ao anoitecer que se fechou num botão.

Então fico eu e o lírio. Os dois, fechados na noite e em nós. Na esperança mastigada que a luz de uma manhã qualquer nos venha libertar, e eu volte, enfim, a cantar. 

Um cão a ladrar metáforas

Ontem à noite, o cão de um vizinho ladrou, incessantemente, durante três horas. Eu lia e ele ladrava, e eu lia a mesma frase outra vez, porque ele ladrava. Ficámos neste embalar ao contrário, quando a esperança se mistura com o desespero, e já não sabemos se somos feitos de coragem ou medo. Não sei quando se calou, tinha-me habituado ao latir compassado e resiliente, e foi só depois de um momento prolongado de silêncio que dei pela ausência de ruído.

Fechei o livro. Olhei o relógio. Duas da manhã e uma sensação de déjà-vu. O cão era a minha ansiedade. O ladrar insistente eram as dores, as dormências, as palpitações. A certeza de que nunca vai passar, e o momento efémero em que me apercebo que, há algum tempo, que passou, só para voltar novamente.

A minha ansiedade é um cão sozinho a meio da noite. Quer atenção. A minha atenção. E eu leio as mesmas frases do mesmo livro, repetidas e gastas, como o mal estar que me percorre o corpo. Aceito. Não porque não me ache capaz, mas porque coabitamos o mesmo espaço há tempo suficiente para saber que resistir-lhe, é prolongar um sofrimento que não falha, mas pode ser menor. 

A minha avó sempre me disse, os cães ladram e a caravana passa.

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