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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Era uma casa que se duplicava, e que à noite sussurrava amor

Quando aparecíamos todos ao mesmo tempo, éramos muitos, e a casa fazia o favor de duplicar. A mesa desdobrava-se noutra e albergava-nos sem excepção. Pratos e copos desavindos, e uma ou outra colher a servir de garfo. Os ovos faziam par com as salsichas, e as batatas fritas empapadas em óleo, repousavam em guardanapos de papel, até a avó dar ordem.

"Vá, filhos, toca a comer."

Havia um que não gostava da gema, e outro que não gostava da clara. Havia sempre algum a abusar da coca-cola, e outro a controlar quantos copos a menos esse ia beber amanhã. 

"Hoje fico no lugar do avô."

Dava sempre discussão, como se a cadeira do avô nos fizesse maiores, melhores. Como se dali se visse o mundo todo, e um bocadinho mais além.

A noite chegava devagar, como se não quisesse incomodar tanta luz com escuridão. Então, havia banhos de par em par, pijamas improvisados, canecas de café com leite, e bolachas Maria barradas com manteiga Planta. 

Éramos cinco para uma cama de corpo e meio, e eu imaginava sempre algum a ser serrado em dois, mas nunca eu. No chão de madeira velha, a avó empilhava cobertores até conseguirmos fingir que tínhamos um colchão. Dois apertavam-se na cama, outros três no soalho. Conversávamos baixinho, num riso que se segreda e uma felicidade que se abafa, mas não se contém.

Era quando iam adormecendo, um a um, que eu me mantinha acordada para os ouvir.

No quarto que guardava a porta de casa, no silêncio dos netos que se renderam ao sono, os meus avós falavam num sussurro doce e indecifrável. As luzes do candeeiro de rua a iluminar parte do corredor, os ponteiros do relógio da sala a embalar a noite, e eles. As vozes baixinhas a contar histórias que nunca soube quais eram.

Fechava os olhos e deixava-me adormecer. Até hoje, ninguém escreveu balada mais doce, que a melodia dos meus avós a conversarem na noite.

Dois miúdos, um aniversário e uma faca de cozinha

1 de junho de 1988.

A entrada da casa da vizinha era uma espécie de terraço que desaguava numa cozinha. Havia uma parreira que trepava pelas paredes e abraçava-se lá em cima, a fazer sombra a quem lá parasse.  A porta  era escudada por umas fitas de plástico vermelho, onde eu gostava de me enrolar. Diziam que era para afastar as moscas, mas era pouco eficaz a afastar-me a mim.

"Não te pendures, que isso cai. E larga isso, olha as moscas."

Naquele dia, as fitas estavam arredadas, o que me fez pensar que um bocadinho de moscas não fazia mal a ninguém. Penduraria-me mais vezes. No chão, uma imensa toalha de piquenique, eu, o aniversariante, e um balde de Playmobil. Era dia de festa, e cheirava a bolos.

De vez em quando, passava pela mesa grande, improvisada com ripas de madeira, e esquivava-me para a cozinha. Queria ver a vizinha a bater claras em castelo, e a tapar os buracos dos bolos com tampas de tupperware, porque ficavam mais bonitos.

"Esse é de quê? Eu não gosto de chantilly. Posso rapar? Ele faz mais um ano que eu, sabias?"

Sabia, que o pariu.

O dia ia longo, e um choro aflito estremeceu as parreiras. Quem costumava chorar era eu, ele não, mas tinha razão. Na tentativa de deixar careca um dos bonecos, cerrou-lhe os dentes para lhe arrancar o cabelo, e ficou com o lábio entalado. Ele gritava e o lábio inchava, e ele gritava ainda mais.

Na pressa de ver o rapaz despachado para a própria festa de aniversário, a vizinha pegou na maior faca de cozinha que encontrou e foi, decidida, resolver a questão. Quatro olhos arregalaram-se. Os dele e os meus. Houve um silêncio que encheu o terraço, até que ele gritou:

"Chama a Júlia!"

E eu chamei. 

Primeiro riu-se, porque ela ri muito e aquilo tinha graça. Riu-se dos quatro lábios que ele parecia ter, e da vizinha, desnorteada, ainda de faca na mão. Depois, devagar, e sei lá como, desentalou-lhe o lábio, devolveu o cabelo ao boneco e o boneco ao balde. Ajeitou a saia, riu mais um bocadinho e despediu-se com um "Até já, e não te pendures nas fitas".

Foi nesse dia quente de junho, à sombra de uma parreira, na doce calmaria que segue sempre uma tempestade, que percebi: a minha avó era de toda a gente.

Se caíres, não te demores

"Ai, minha rica filha."

Era assim, de sobressalto na voz e mãos na cabeça, como quem vê a desgraça a passar-lhe rente ao peito, que a minha avó reagia quando me via cair.

Com mais ou menos sangue, mais ou menos lágrimas, o aparato era igual. Nem maior, nem mais pequeno.

"Ai, minha rica filha."

Corria até mim, levantava-me, sacudia-me o vestido, e limpava-me as feridas, se as havia. Depois voltava serena ao que estava a fazer, enquanto anunciava que aquilo não era nada e eu, que fosse à minha vida.

Foi assim pelos anos fora. Condoída por me ver sofrer, mas logo pronta a desfazer os nós que às vezes eu própria emaranhava. É um desapego apegado de quem sabe que tudo se perde, e não há tempo a perder.

Cada vez que me desiquilibro e esfolo os joelhos da alma na vida, ouço-lhe o grito, e sei que, a seguir, vai ficar tudo bem.

Um. Dois. Três.

Uma noite destas, enroscada na ponta da cama, tremia. A desejar que fosse dia, dei por mim a dar três palmadinhas na perna. 

Quando era pequena, e o colo da minha avó ainda me albergava inteira, era assim que me recebia. Um, dois, três. Três pancadinhas. Demasiado fortes para me embalarem, mas que, sem chegarem a magoar, me serenavam.

Durante toda a vida, e até hoje, que já não tenho tamanho para o tamanho que o colo dela tem, é assim que quebra os meus silêncios, mesmo que continue calada.

Mãos encolhidas pela idade que estica, chega-se a mim com um sorriso e cumpre o ritual. Uma espécie de trilogia de amor, a contar-me, três vezes, que há-de ficar tudo bem. Mesmo que agora esteja tudo mal.

Um. Dois. Três.

 

 

Os meus avós são um banquinho de madeira

Adorava comer. E comia como os adultos, entre os adultos. O meu avô fez-me um banquinho de madeira que colocava em cima de um cadeirão. O mesmo que lhe deu amparo nos últimos anos de vida. Eu esticava os braços e ele pegava-me ao colo. Eu achava que ele devia ser muito forte para me fazer voar, desde o chão, até aterrar no banquinho. 

A minha avó pousava-me o prato à frente. Carne cortada como se fossem dados de brincar, massinhas e cenouras, para os olhos ficarem bonitos. Confiava-me o garfo e a tarefa. Sabia que não era preciso mandar-me comer tudo.

Um dia, levou-me de autocarro até à vila.

"Vamos ao Doutor e depois compramos uma revista."

Não me pareceu mau negócio.

"A menina está gorda. Não a podem deixar comer da maneira que quer. A menina está gorda. Tem de fazer dieta. A menina está mesmo, mesmo gorda. Não quer ser feia, pois não?"

E eu não queria, mas já me sentia. Gorda e pequenina. Tanto, que desejei ter o meu avô a lançar-me no ar até ao banquinho que me fazia crescer.

Não me lembro das despedidas, nem do plano de dieta para deixar de ser a menina gorda que agora era. Lembro-me da mão da minha avó a entrelaçar a minha, para descermos as escadas íngremes que iam dar ao passeio, e de me puxar depois, em passo firme, para a porta ao lado. Uma pastelaria.

"Vá, filha. Agora escolhe o bolo que quiseres, e que nunca ninguém te diga que és feia, tu estás a ouvir ?"

Ainda hoje as bolas de berlim têm o sussurro da minha avó: "tu estás a ouvir?"

Foi aí que percebi que os meus avós foram um banquinho de madeira. Feitos para me elevar, quando acho que o tamanho me falta.

Estou presa como um lírio num botão

IMG_3566 4.jpg

O quintal da minha avó tinha canteiros fartos, num emaranhado de espécies que coloria a casa e a vida. No canteiro do lado esquerdo, assim que se pisava a rua, existia um ramo imenso de lírios brancos. Fazia dos botões microfones, do cimento o meu palco, e dançava ao som da música que só eu ouvia na minha cabeça. Rodava, repetidamente, sobre o meu corpo num desfecho antecipado pelo meu avô, que me sacudia depois as pedrinhas dos joelhos e me mandava seguir, que é o que se faz quando a contra-ordenação não é grave.

Agora os canteiros sobram terra vazia, e há, aqui e ali, uma flor ou outra, como que a avisar quem passa, que nem tudo por lá morreu. Os lírios mudaram de cor e agora são amarelos, numa espécie de ode à inocência que se perdeu, entre os meus concertos de improviso, e o agora, que me parece tão ou mais improvisado.

Pedi um lírio à minha avó e coloquei-o na cabeceira. Reparei ao anoitecer que se fechou num botão.

Então fico eu e o lírio. Os dois, fechados na noite e em nós. Na esperança mastigada que a luz de uma manhã qualquer nos venha libertar, e eu volte, enfim, a cantar. 

Trago um bairro comigo

Era um bairro que fazia jus ao nome. Com vizinhos que se conheciam, e distribuíam  ramos de salsa, que apanhavam das hortas, ou ofensas e promessas de "se te apanho mato-te".

No verão, ao final do dia, juntavam-se ao fresco, com o chão de cimento ainda a emanar calor.

Eles falavam de uma coisa que era o Governo, e desabafavam que "assim não vamos lá". Eu não percebia bem onde é que era suposto irmos, mas esperava que não fosse para ir agora, porque aquelas noites eram as minhas preferidas.

Elas falavam das vizinhas que não estavam, e iam rodando a protagonista conforme a ausência de cada uma. "Isto somos só nós a conversar, han!". Acho que foi o primeiro eufemismo da minha vida.

Debruçavam-se nos muros sem nunca pisarem propriedade privada. Espalhavam-se pelo passeio, à luz dos candeeiros, e contavam vida. 

"Oh 'vó, posso comer um gelado?"

"Estás a fazer a digestão."

Odiava a digestão. Não me deixava fazer nada. Um dia parou e passei a dar-lhe valor.

Era um bairro, mesmo bairro. De casas baixas e pessoas altas. De portas sempre abertas, porque não se deixa a família na rua.  De jogos de bola com pé descalço, e joelhos esfolados. De irmãos, que eram filhos únicos.

Sobra pouco bairro, do tanto que o bairro foi, mas se fechar os olhos ainda lá estou. O chão está quente, as vozes misturam-se com o som dos grilos, e a minha avó disse para eu comer o gelado, porque já fiz a digestão. 

A janela que guardava o mundo inteiro

Para lá da porta da cozinha da casa da minha avó, havia aquilo a que se chamaria de anexo. Nós chamávamos-lhe barraca. Sempre fomos assim, despojados de realeza que fosse além da terrina antiga, em cima da mesa da sala, onde se guardavam as pastilhas elásticas.

À saída, aos pés do degrau, havia uma espécie de tapete alto em ferro, que me fazia sentir grande, como os grandes. E tropeçar.

"Vai devagar que cais."

E às vezes caía, mas nunca ia devagar.

Os alguidares de roupa no tanque cinzento, e os sapatos lavados com Sonasol, na altura em que Sonasol era tudo o que havia e nada cheirava assim. O avô a fazer copos das garrafas de Sumol. O Sol a queimar o chão que me escaldava os pés, enquanto saltitava para aliviar o ardor.

"Calça-te."

E eu fingia que não era comigo. Não ia agora sujar os sapatos.

Ao fundo, quase encostada ao tecto, por cima de uma mesa larga de madeira, havia uma janela velha. Lavada com o tempo. O fecho lasso, a pedir-me que o libertasse.

"Avó, para onde dá aquela janela?"

"Para onde quiseres." 

Dava para a parede da vizinha. Nem sequer era uma parede bonita, rebocada, pintada. Era tijolo e cimento. Sem preceito. Como se soubessem que nunca ninguém duvidaria, a ponto de querer confirmar, que além daquela janela, o mundo era o que nós imaginássemos ser.

A minha avó não se mede aos palmos

A minha avó é pequena. Mesmo pequena. Tanto, que um dia um médico perguntou-lhe o tamanho. Olhou para a minha mãe e, sem auxílio, atirou, dona de si:

"Um metro e sessenta, Doutor!"

E o homem riu. Riu muito. Tal não era o exagero que um metro e sessenta lhe conferia.

É pequenina. Engraçadinha, como as coisas que nos cabem nas palmas das mãos. Mas não se mede aos palmos, não.

Uma vez, numa casa de banho pública qualquer, acompanhada da mesma filha que nem as medidas lhe fez o favor de relembrar, reparou que o buraco da fechadura tinha um olho. Estranhou. Era do Entroncamento , mas nem aí as fechaduras tinham mais do que um buraco.

Não precisou baixar-se muito para ficar ao nível do rostolho. Já vos disse que ela é pequena? Mirou o mirone nos olhos, esticou o indicador, e enfiou-o fechadura e vista adentro. 

Por entre gritos de "Ai Jesus, que me cegou", abriu a porta e seguiu caminho. O zarolho lá ficou, agarrado à cara e à perplexidade. Mais tarde haveria de jurar, que aquela mulher que o desgraçou era alta como um rochedo, e ele nunca viu nada assim.

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