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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

No primeiro dia de escola

Era setembro, e eu sabia escrever as letras do meu nome. A minha avó dizia para me deixarem brincar, mas eu já estava perdida entre cadernos e canetas, e se a escola fosse em casa, podia começar já. O meu avô comprou-me uma mochila da Ambar, na loja da Dona Nana. Era roxa e verde, e custou-lhe cinco contos. E o miúdo da vizinha estava avisado para olhar por mim. 

A manhã chegou devagar, mas mais depressa do que todas as outras. As rolas cantavam para me despertar, e a cortina branca e rendilhada, fazia questão de não fintar a luz, para iluminar tudo o que era. Foi a primeira vez que não me quis levantar.

O avô já tinha saído, e a avó já tinha bebido o café. O dia corria igual, banal, mas estava tudo diferente. Foi nessa tarde, a subir a encosta que ia dar à escola, com a minha mochila roxa e verde às costas, que o mundo deixou de ser só flores e cimento quente, figos caídos e pombos corridos. Descobri que o mundo era maior. Mas o meu era melhor.

 

A porta do meu coração

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É uma porta antiga, mas ninguém diria. Tem no centro uma ranhura para o correio, que deixava as cartas ensopadas no inverno, e que sempre usei para chamar a minha avó. Os vidros castanhos, têm um jardim a condizer com o quintal. Flores que se entrelaçam num padrão que decorei com todos os sentidos e sentir. Reflectem nas paredes da casa todas as vezes que o Sol se impõe dono do dia, ou que um farol de um carro ilumina a noite.

Passou por ela tanta gente. Fecho os olhos e vejo-os entrar. 

"Ó Júlia, estão a bater à porta."

E ela vinha, mesmo estando mais longe. Apressada, contrariada, a limpar as mãos ao avental.

Depois abria a porta e o sorriso.

"Entre, entre!"

Porque era uma casa que mandava gente entrar, e ficar. E lhes preparava comida, e quantas camas fossem precisas. Era uma casa farta, que não se fartava. E mesmo quando o fardo pesava, se relevava e continuava. 

Foi porta porteira de más notícias a meio da madrugada, daquelas que nos deixam ali, entre a ombreira e o chão, e já pouco chão nos sobra. Mas depois recebeu boas novas. Os milagres que a vida nos dá às 20h12 de uma noite de outono.

Há uns tempos, a levantar a portinhola do correio para chamar por ela, nos segundos de silêncio que se seguiram antes de me responder, apercebi-me de que um dia aquela casa com voz se vai calar. A porta vai deixar de abrir por dentro, e as notícias vão ser dadas noutro lugar.

Quando a porta se trancar, há uma miúda que vai continuar a chocalhar a caixa do correio, e uma avó que lhe vai responder. Porque são assim as coisas ternas, eternas.

 

Um copo de tinto e saudade

Havia cavalos no Tejo, a refrescarem um dia de verão. Pessoas na rua, a fazerem dela o que ela era antigamente. A brisa era quente, como o calor daquela gente. Ao canto, sentado num muro branco, a condizer com a camisa, estavas tu. Cabelo ainda negro, como as azeitonas que apanhávamos nos finais de tarde, de cada outono. 

"Não chego lá, avô. Não chego!"

Continuavas a tarefa comigo às cavalitas. Mais azeitonas no chão, que na saca. Mais amor, sempre.

Estavas, à conversa, debaixo da única sombra que existia. Rias. Muito e alto. Não me viste e não fez mal. Encheste o copo de vinho e brindaste à vida.

Cada vez que o peito aperta e tudo aflige e dói, esperas que durma e apareces. Tu e o copo de tinto. A lembrar-me que quando ele está vazio, somos nós que o temos de encher. À sombra de um dia de Sol, na margem do rio que somos, nas gargalhadas antigas de um amor que é para sempre.

Até ao próximo brinde.

 

Quando ele deixou de ser agora

Levantou-se a meio de um domingo de agora, sozinho e confuso. A casa afundava-se no pouco que sobrava, e em tudo havia quase nada de afecto. Olhou para o relógio. Já eram trinta anos atrás. Procurou a farda de um trabalho que já não tinha, e comeu apressado, atrasado para coisa nenhuma.

Sentou-se. A cadeira rangeu, num esgar de dor que abraçava todas as dores que passaram por ela. Olhou a mesa e tudo o resto. Espaços alheios que sempre foram só dele. Já teria comido? O prato vazio a dar-lhe a resposta. A dúvida vincada, na memória que lhe fugia.

Chamou-a. O silêncio trouxe-o de volta ao presente, e ao luto que fazia cada vez que ela não respondia. Pegou no prato e no copo e, sem saber onde ia, largou-os logo a seguir. Levou as mãos à cabeça. Lembrou-se que estava atrasado. Eram trinta anos depois. Bem podia ser agora, ou mais tarde. Ele já não era hoje. 

 

Era uma casa que se duplicava, e que à noite sussurrava amor

Quando aparecíamos todos ao mesmo tempo, éramos muitos, e a casa fazia o favor de duplicar. A mesa desdobrava-se noutra e albergava-nos sem excepção. Pratos e copos desavindos, e uma ou outra colher a servir de garfo. Os ovos faziam par com as salsichas, e as batatas fritas empapadas em óleo, repousavam em guardanapos de papel, até a avó dar ordem.

"Vá, filhos, toca a comer."

Havia um que não gostava da gema, e outro que não gostava da clara. Havia sempre algum a abusar da coca-cola, e outro a controlar quantos copos a menos esse ia beber amanhã. 

"Hoje fico no lugar do avô."

Dava sempre discussão, como se a cadeira do avô nos fizesse maiores, melhores. Como se dali se visse o mundo todo, e um bocadinho mais além.

A noite chegava devagar, como se não quisesse incomodar tanta luz com escuridão. Então, havia banhos de par em par, pijamas improvisados, canecas de café com leite, e bolachas Maria barradas com manteiga Planta. 

Éramos cinco para uma cama de corpo e meio, e eu imaginava sempre algum a ser serrado em dois, mas nunca eu. No chão de madeira velha, a avó empilhava cobertores até conseguirmos fingir que tínhamos um colchão. Dois apertavam-se na cama, outros três no soalho. Conversávamos baixinho, num riso que se segreda e uma felicidade que se abafa, mas não se contém.

Era quando iam adormecendo, um a um, que eu me mantinha acordada para os ouvir.

No quarto que guardava a porta de casa, no silêncio dos netos que se renderam ao sono, os meus avós falavam num sussurro doce e indecifrável. As luzes do candeeiro de rua a iluminar parte do corredor, os ponteiros do relógio da sala a embalar a noite, e eles. As vozes baixinhas a contar histórias que nunca soube quais eram.

Fechava os olhos e deixava-me adormecer. Até hoje, ninguém escreveu balada mais doce, que a melodia dos meus avós a conversarem na noite.

Entre um sofá e um cadeirão, matam-se saudades com um copo de vinho

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Está fresco, imagino. O Sol já se pôs, mas deixou para trás um filtro de luz que me deixa ver cada canto de cada canteiro. As flores envergonham-se, sem cor nem aroma, e o estendal vazio, corta ao meio aquele espaço que conheço inteiro.

A porta abre-se, e espreitas. Vestes as calças de fazenda cinzentas, demasiado vincadas, perfeitas. Tens o cabelo cortado e a pele menos enrugada, o andar mais recto, mais teu. Não falas, e isso aflige-me. Não te consigo falar, e isso aflige-me mais. Pousas o teu olhar em mim e percebo que devo entrar.

A sala tem mais luz, mas nunca muita. A mesa está posta e há o ruído de uma família grande num espaço pequeno, mas é como se os meus ouvidos estivessem tapados por um oceano. Passam-me pratos e garrafas de vinho pelos olhos. Sei que está frio, mas não o sinto. Não me cheira a nada, mas serves-te do tacho grande. Suponho que seja um dia solene, porque abriram a mesa, e há mais cadeiras do que aquelas que temos. 

Estou apertada a um canto, entre o sofá grande e o cadeirão. Parece Natal, mas não vejo árvore nem presentes. Tudo são vultos e sons indistintos. Menos tu. Pegas no copo de vinho e fazes-me sinal, como quem brinda ao infinito.

Acordo na dúvida se devo acender a luz, mas o Sol decide isso por mim. Fecho os olhos e brindo de volta. Há tanto tempo que não te via.

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