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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Hoje passei por casa

Fui levar as compras à casa da minha avó, e deixei-me estar a conversar. Ela não percebe tudo, acho que nem ouve tudo, mas sorri a tudo. Dá palmadinhas nas pernas, como quem diz "vá, isso também vai passar". E eu continuo. Num quase monólogo. Uma enxurrada de "ais" e "tu vê lá", que arranco da alma e lhe deito nas mãos. O que faz depois com eles, não sei. Mas deixam de estar no meu campo de visão, aninhados no meu peito, a pesarem-me toneladas e a colarem-me ao chão. 

"Queres almoçar, filha?", e ela sabe que não quero, mas é a pergunta e o cuidado que me alimentam.

Depois, mostra-me vestidas, as camisolas de malha que lhe levei. Lembro-me das vezes em que íamos à feira de mãos dadas, e me comprava roupa. Chegadas a casa, era a primeira coisa que fazia.

"'vó, fico bem?"

"Ai, que coisa mais linda, filha."

A minha avó foi muito boa a desviar-me dos receios e a ensinar-me o amor próprio. Sempre encolheu os ombros às dores menores, às vezes até às assim-assim, porque isto é passagem e ela sabe disso.

Colocou-me, desde pequenina, no caminho certo para, pelo menos, viver sem muitas angústias, muitos "ai jesus". Mas quem pegou no volante fui eu e o caminho foi sendo diferente do que poderia ter sido.

Sou menos Júlia do que gostaria, mas gosto que tenha tido a Júlia a regar-me as raízes. No meio das tempestades, há-de sobrar alguma Júlia em mim.

Eu vou por ali

"Se a morte vier por aqui, eu vou por ali. Mas sei que, um dia, vamos ter de nos encontrar."

Sempre que o meu avô dizia isto, eu imaginava uma encruzilhada. Ele e uma figura preta, de foice na mão, ficavam frente a frente, como que a ponderar um cumprimento. Depois um ia pela esquerda, outro pela direita. Fosse, como fosse, ele chegava sempre a casa, e eu achava que aquele era um cumprimento que nunca se iria fazer.

Não sei em que altura me apercebi da efemeridade da vida. Morriam pessoas à minha volta, mas nunca nada morria em mim. Era gente de outras gentes, choros que não me molhavam o colo. Um dia tive medo. Então, mas é assim? Vive-se uma vida, ama-se alguém para sempre, e depois ela vai-se embora? 

O meu avô foi a primeira pessoa que perdi, e fez todo o sentido. Ensinou-me tanta coisa durante a vida, porque pararia depois da morte?

Cada vez que o peito aperta e é difícil viver, penso nele e na encruzilhada, e escolho a vida. 

Hoje, como sempre, vou por ali.

O dia em que a empatia casou

Quando a filha da vizinha se casou, foi um acontecimento. O bairro estava habituado a flores e dores, mas os laços nos carros, os folhos e as gravatas, nunca tinham sido para ali chamados.

Eu queria um vestido laranja, sem cerimónias. Então, a minha mãe comprou-me um vestido branco, com mais rendas que as colchas das minhas tias. Saia rodada, e mangas em balão. Parecia os caramelos que o meu pai me trazia de Espanha, mas pior.

"Não faças essa cara. Isso é bordado inglês, depois dá para levares para a escola."

Ia rir-me, mas vi que ela estava a falar a sério, e deixei de achar graça.

Quando fomos, à tarde, comprar os fatos dos meus avós, íamos dois. Eu e o meu burro amarrado, ainda à conta da toilette. O meu avô comprou um fato castanho, que havia de usar pelo resto da vida, a cada cerimónia que o justificasse. A minha avó comprou um fato saia e casaco azulão. Não havia ninguém para obrigá-la a vestir um abajur.

Na sapataria, a mesma que me condenou a umas sandálias e meias brancas, a minha avó comprou umas sandálias azuis, de salto alto. Invejei-lhe a sorte, e passadas as festividades, passei a andar com elas por casa.

O barulho do salto nos mosaicos brancos, faziam sentir-me importante. Alta, ainda que desengonçada. Se fosse a minha avó nunca as tirava.

"Ó 'vó, porque é que nunca usas estas sandálias? São tão lindas."

"Ferem-me os pés."

Acho que foi a primeira vez que percebi, que nos sapatos dos outros, por mais bonitos que sejam, só eles sabem o quanto custa andar.

Quero saber

Revirei-me do avesso, despi-me de dentro para fora. Quero saber de onde vem isto de sentir tanto. Em demasia, para o pouco que um só peito suporta. Quero saber. Quem me tornou cativa do meu coração. A contar-lhe batidas, anseios, corridas. Ao menos que me fizessem maior. Ou dividissem as penas por mais prisioneiros. 

Fiz contas ao que tenho, e sobrou-me saudade. É o troco que se leva quando se sente. E eu já disse que sinto muito. Não tenho porta-moedas para tanto sobejo. Às vezes, deixo-as cair. Copiosamente, como chuva em dezembro. Depois resto-me a mim para as apanhar, secar, guardar.

Viver cá dentro é conviver com tudo o que foi, e tudo o que será. Estou cansada de não ter espaço definitivo no tempo. Quero saber o agora. 

Quero saber. 

 

Um copo de tinto e saudade

Havia cavalos no Tejo, a refrescarem um dia de verão. Pessoas na rua, a fazerem dela o que ela era antigamente. A brisa era quente, como o calor daquela gente. Ao canto, sentado num muro branco, a condizer com a camisa, estavas tu. Cabelo ainda negro, como as azeitonas que apanhávamos nos finais de tarde, de cada outono. 

"Não chego lá, avô. Não chego!"

Continuavas a tarefa comigo às cavalitas. Mais azeitonas no chão, que na saca. Mais amor, sempre.

Estavas, à conversa, debaixo da única sombra que existia. Rias. Muito e alto. Não me viste e não fez mal. Encheste o copo de vinho e brindaste à vida.

Cada vez que o peito aperta e tudo aflige e dói, esperas que durma e apareces. Tu e o copo de tinto. A lembrar-me que quando ele está vazio, somos nós que o temos de encher. À sombra de um dia de Sol, na margem do rio que somos, nas gargalhadas antigas de um amor que é para sempre.

Até ao próximo brinde.

 

Se puderes, desculpa-me

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Desculpa.

Devias ter podido dormir sem o peso de ouvir tudo o que a noite grita. Eras pequena, sem tamanho para o medo que te habitava. Então, ele engoliu-te, misturou-se em ti até serem a mesma coisa. De luz acesa, porque o escuro desafiava-te a coragem, fingias que lias enquanto pedias. Pedias que a manhã chegasse tranquila, mesmo que amanhecesses exausta.

Desculpa.

Devias ter podido brincar sem saber que coisas más acontecem. E rir, e correr, e estar em ti sem pensar que as pessoas vão embora, e que choram e que há coisas cruéis dentro delas, que não são culpa tua. Não tinhas culpa. Ouviste? Nunca tiveste culpa.

Desculpa.

Devias ter podido crescer a saber o teu tamanho. Já eras tão grande, mesmo quando a altura não combinava. Deviam ter-te contado coisas boas sobre ti, para, quando daquela vez que te disseram que eras nada, saberes que te mentiam. Mentiram-te, porque eras tudo. As pessoas têm medo de pessoas que são tudo.

Desculpa.

Devias ter podido viver para ti, sem a sentença de cuidar. Porque se não cuidasses iam embora, porque se não te desses e te esgotasses nos outros, ficavas sem os outros e sem ti. E depois? O que é se faz quando não somos?

Desculpa. 

A ti. A mim. A nós, que sou só eu. Desculpa. 

Se caíres, não te demores

"Ai, minha rica filha."

Era assim, de sobressalto na voz e mãos na cabeça, como quem vê a desgraça a passar-lhe rente ao peito, que a minha avó reagia quando me via cair.

Com mais ou menos sangue, mais ou menos lágrimas, o aparato era igual. Nem maior, nem mais pequeno.

"Ai, minha rica filha."

Corria até mim, levantava-me, sacudia-me o vestido, e limpava-me as feridas, se as havia. Depois voltava serena ao que estava a fazer, enquanto anunciava que aquilo não era nada e eu, que fosse à minha vida.

Foi assim pelos anos fora. Condoída por me ver sofrer, mas logo pronta a desfazer os nós que às vezes eu própria emaranhava. É um desapego apegado de quem sabe que tudo se perde, e não há tempo a perder.

Cada vez que me desiquilibro e esfolo os joelhos da alma na vida, ouço-lhe o grito, e sei que, a seguir, vai ficar tudo bem.

Um. Dois. Três.

Uma noite destas, enroscada na ponta da cama, tremia. A desejar que fosse dia, dei por mim a dar três palmadinhas na perna. 

Quando era pequena, e o colo da minha avó ainda me albergava inteira, era assim que me recebia. Um, dois, três. Três pancadinhas. Demasiado fortes para me embalarem, mas que, sem chegarem a magoar, me serenavam.

Durante toda a vida, e até hoje, que já não tenho tamanho para o tamanho que o colo dela tem, é assim que quebra os meus silêncios, mesmo que continue calada.

Mãos encolhidas pela idade que estica, chega-se a mim com um sorriso e cumpre o ritual. Uma espécie de trilogia de amor, a contar-me, três vezes, que há-de ficar tudo bem. Mesmo que agora esteja tudo mal.

Um. Dois. Três.

 

 

A alma também dói

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Chamam-lhe cão negro, mas eu tenho um e gosto muito dele. Em boa verdade, este morde, rasga a pele. O meu só me rosna quando não está satisfeito, mas não somos todos um bocadinho assim? Se tivesse de dar-lhe um nome, chamava-lhe dor de alma. Porque a alma não tem forma, e esta dor também não.

"O que é que sentes?"

Nada. Um nada que desagua num mar salgado de lágrimas, que é a forma que a alma tem de sangrar. E não há compressas nem pensos rápidos que estanquem olhos que nos derramam. De dentro para fora. Como se fôssemos um copo, e transbordar fosse a única forma de não partirmos.

Então estalamos. Lascamos, aqui e ali. Vamos ensaiando sorrisos como paliativos, mais para os outros do que para nós.

"O que é que sentes?"

Tudo. Como se todas as dores do mundo fizessem morada em nós. E queremos fugir, e dizer que não moramos aqui. Fazer as malas e metermo-nos ao caminho. "Volte mais tarde que agora não está ninguém". Mas está. Estamos. Nunca ninguém conseguiu fugir de si.

Então ficamos. Doemos. Gritamos com o rosto contra a almofada, porque são dores que não têm escala, nome, entendimento. Doem, apenas.

Se tivesse de dar-lhe um nome, chamava-lhe dor de alma. É que quando a alma dói, não há nada que não nos doa.

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