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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Pediste-me calma e vinte anos depois eu dormi

Lembro-me de me pedires calma, enquanto não conseguias encontrar a tua. Andavas da sala para a cozinha, mãos a bater uma na outra, como se faz quando não sabemos o que fazer. E eu insistia nas certezas absolutas que se têm na adolescência e dizia que não aguentava mais, que nunca traria tanta dor colada a mim, nem a sopraria noutros peitos que já padecessem também.

Abanavas a cabeça, mais triste que desiludido, enquanto, de voz embargada, dizias que não era culpa de ninguém. Que ninguém escolhia sofrer assim. Acontecia, como acontecem outros acasos infelizes. Depois baixavas os olhos, fitavas o chão, derrotado. Porque tu percebias, mas não esperavas que ninguém percebesse.

Agora, sozinha no escuro, enquanto o ar me faltava e desabava de dentro para fora, como maré que enche, sussurraste-me a calma que me pediste tanta vez. Vi-te, mãos a bater uma na outra, como se as minhas dores te doessem em toda a parte, além do corpo que já não és. 

Ouço-te e compreendo. Porque já não tenho certezas absolutas, e aprendi que ninguém escolhe sofrer assim. Ninguém anseia ter de ansiar que o ar chegue, nem que os músculos baixem a guarda e permitam que o corpo descanse.

Sinto a respiração a voltar ao normal, e o peito percebe que afinal tem todo o ar do mundo à disposição. O corpo relaxa, como um soldado que vê a bandeira branca e sabe que a guerra acabou. Os olhos pesam, e sei que vou poder dormir, embalada pelos teus pedidos de calma de há vinte anos. 

Às vezes acho que percebias, porque também tu eras mar revolto. Talvez por isso tenhas escolhido o rio.

O dia em que a empatia casou

Quando a filha da vizinha se casou, foi um acontecimento. O bairro estava habituado a flores e dores, mas os laços nos carros, os folhos e as gravatas, nunca tinham sido para ali chamados.

Eu queria um vestido laranja, sem cerimónias. Então, a minha mãe comprou-me um vestido branco, com mais rendas que as colchas das minhas tias. Saia rodada, e mangas em balão. Parecia os caramelos que o meu pai me trazia de Espanha, mas pior.

"Não faças essa cara. Isso é bordado inglês, depois dá para levares para a escola."

Ia rir-me, mas vi que ela estava a falar a sério, e deixei de achar graça.

Quando fomos, à tarde, comprar os fatos dos meus avós, íamos dois. Eu e o meu burro amarrado, ainda à conta da toilette. O meu avô comprou um fato castanho, que havia de usar pelo resto da vida, a cada cerimónia que o justificasse. A minha avó comprou um fato saia e casaco azulão. Não havia ninguém para obrigá-la a vestir um abajur.

Na sapataria, a mesma que me condenou a umas sandálias e meias brancas, a minha avó comprou umas sandálias azuis, de salto alto. Invejei-lhe a sorte, e passadas as festividades, passei a andar com elas por casa.

O barulho do salto nos mosaicos brancos, faziam sentir-me importante. Alta, ainda que desengonçada. Se fosse a minha avó nunca as tirava.

"Ó 'vó, porque é que nunca usas estas sandálias? São tão lindas."

"Ferem-me os pés."

Acho que foi a primeira vez que percebi, que nos sapatos dos outros, por mais bonitos que sejam, só eles sabem o quanto custa andar.

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