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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Hoje passei por casa

Fui levar as compras à casa da minha avó, e deixei-me estar a conversar. Ela não percebe tudo, acho que nem ouve tudo, mas sorri a tudo. Dá palmadinhas nas pernas, como quem diz "vá, isso também vai passar". E eu continuo. Num quase monólogo. Uma enxurrada de "ais" e "tu vê lá", que arranco da alma e lhe deito nas mãos. O que faz depois com eles, não sei. Mas deixam de estar no meu campo de visão, aninhados no meu peito, a pesarem-me toneladas e a colarem-me ao chão. 

"Queres almoçar, filha?", e ela sabe que não quero, mas é a pergunta e o cuidado que me alimentam.

Depois, mostra-me vestidas, as camisolas de malha que lhe levei. Lembro-me das vezes em que íamos à feira de mãos dadas, e me comprava roupa. Chegadas a casa, era a primeira coisa que fazia.

"'vó, fico bem?"

"Ai, que coisa mais linda, filha."

A minha avó foi muito boa a desviar-me dos receios e a ensinar-me o amor próprio. Sempre encolheu os ombros às dores menores, às vezes até às assim-assim, porque isto é passagem e ela sabe disso.

Colocou-me, desde pequenina, no caminho certo para, pelo menos, viver sem muitas angústias, muitos "ai jesus". Mas quem pegou no volante fui eu e o caminho foi sendo diferente do que poderia ter sido.

Sou menos Júlia do que gostaria, mas gosto que tenha tido a Júlia a regar-me as raízes. No meio das tempestades, há-de sobrar alguma Júlia em mim.

É o espelho de outra parede qualquer

Às vezes fixo um ponto na parede e fico a olhá-lo, como se me visse. A altura é a minha, mas mais altiva, e os dedos finos têm mais firmeza. O cabelo alourado não tem pontas soltas, e sabe bem com que linhas se amarra. O nariz é igual, pequeno, mas ascendente, como se fosse o primeiro a chegar, quando chego. Trago debaixo do braço folhas soltas, escritas à mão. Letra perfeita, tinta preta. Detesto tinta preta.

"Sabia que ia chegar o dia."

É tudo o que consigo ler, por entre um cotovelo e uma costela. Suponho que chegue. Que aquele ponto na parede seja espelho de outra parede qualquer. Que me espera. Que me reflecte inteira, com medos e sonhos, desmedidos na mesma medida. 

"Sei que o dia há-de chegar."

A letra vai ser perfeita, mas a tinta será azul.

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Todos os textos e imagens que compõem este Blog, são da autoria de Susana C. Fernandes. Qualquer reprodução destes conteúdos deve ser sempre feita com referência à autora.

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