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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

O dia em que a empatia casou

Quando a filha da vizinha se casou, foi um acontecimento. O bairro estava habituado a flores e dores, mas os laços nos carros, os folhos e as gravatas, nunca tinham sido para ali chamados.

Eu queria um vestido laranja, sem cerimónias. Então, a minha mãe comprou-me um vestido branco, com mais rendas que as colchas das minhas tias. Saia rodada, e mangas em balão. Parecia os caramelos que o meu pai me trazia de Espanha, mas pior.

"Não faças essa cara. Isso é bordado inglês, depois dá para levares para a escola."

Ia rir-me, mas vi que ela estava a falar a sério, e deixei de achar graça.

Quando fomos, à tarde, comprar os fatos dos meus avós, íamos dois. Eu e o meu burro amarrado, ainda à conta da toilette. O meu avô comprou um fato castanho, que havia de usar pelo resto da vida, a cada cerimónia que o justificasse. A minha avó comprou um fato saia e casaco azulão. Não havia ninguém para obrigá-la a vestir um abajur.

Na sapataria, a mesma que me condenou a umas sandálias e meias brancas, a minha avó comprou umas sandálias azuis, de salto alto. Invejei-lhe a sorte, e passadas as festividades, passei a andar com elas por casa.

O barulho do salto nos mosaicos brancos, faziam sentir-me importante. Alta, ainda que desengonçada. Se fosse a minha avó nunca as tirava.

"Ó 'vó, porque é que nunca usas estas sandálias? São tão lindas."

"Ferem-me os pés."

Acho que foi a primeira vez que percebi, que nos sapatos dos outros, por mais bonitos que sejam, só eles sabem o quanto custa andar.

A porta do meu coração

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É uma porta antiga, mas ninguém diria. Tem no centro uma ranhura para o correio, que deixava as cartas ensopadas no inverno, e que sempre usei para chamar a minha avó. Os vidros castanhos, têm um jardim a condizer com o quintal. Flores que se entrelaçam num padrão que decorei com todos os sentidos e sentir. Reflectem nas paredes da casa todas as vezes que o Sol se impõe dono do dia, ou que um farol de um carro ilumina a noite.

Passou por ela tanta gente. Fecho os olhos e vejo-os entrar. 

"Ó Júlia, estão a bater à porta."

E ela vinha, mesmo estando mais longe. Apressada, contrariada, a limpar as mãos ao avental.

Depois abria a porta e o sorriso.

"Entre, entre!"

Porque era uma casa que mandava gente entrar, e ficar. E lhes preparava comida, e quantas camas fossem precisas. Era uma casa farta, que não se fartava. E mesmo quando o fardo pesava, se relevava e continuava. 

Foi porta porteira de más notícias a meio da madrugada, daquelas que nos deixam ali, entre a ombreira e o chão, e já pouco chão nos sobra. Mas depois recebeu boas novas. Os milagres que a vida nos dá às 20h12 de uma noite de outono.

Há uns tempos, a levantar a portinhola do correio para chamar por ela, nos segundos de silêncio que se seguiram antes de me responder, apercebi-me de que um dia aquela casa com voz se vai calar. A porta vai deixar de abrir por dentro, e as notícias vão ser dadas noutro lugar.

Quando a porta se trancar, há uma miúda que vai continuar a chocalhar a caixa do correio, e uma avó que lhe vai responder. Porque são assim as coisas ternas, eternas.

 

Um copo de tinto e saudade

Havia cavalos no Tejo, a refrescarem um dia de verão. Pessoas na rua, a fazerem dela o que ela era antigamente. A brisa era quente, como o calor daquela gente. Ao canto, sentado num muro branco, a condizer com a camisa, estavas tu. Cabelo ainda negro, como as azeitonas que apanhávamos nos finais de tarde, de cada outono. 

"Não chego lá, avô. Não chego!"

Continuavas a tarefa comigo às cavalitas. Mais azeitonas no chão, que na saca. Mais amor, sempre.

Estavas, à conversa, debaixo da única sombra que existia. Rias. Muito e alto. Não me viste e não fez mal. Encheste o copo de vinho e brindaste à vida.

Cada vez que o peito aperta e tudo aflige e dói, esperas que durma e apareces. Tu e o copo de tinto. A lembrar-me que quando ele está vazio, somos nós que o temos de encher. À sombra de um dia de Sol, na margem do rio que somos, nas gargalhadas antigas de um amor que é para sempre.

Até ao próximo brinde.

 

Quando ele deixou de ser agora

Levantou-se a meio de um domingo de agora, sozinho e confuso. A casa afundava-se no pouco que sobrava, e em tudo havia quase nada de afecto. Olhou para o relógio. Já eram trinta anos atrás. Procurou a farda de um trabalho que já não tinha, e comeu apressado, atrasado para coisa nenhuma.

Sentou-se. A cadeira rangeu, num esgar de dor que abraçava todas as dores que passaram por ela. Olhou a mesa e tudo o resto. Espaços alheios que sempre foram só dele. Já teria comido? O prato vazio a dar-lhe a resposta. A dúvida vincada, na memória que lhe fugia.

Chamou-a. O silêncio trouxe-o de volta ao presente, e ao luto que fazia cada vez que ela não respondia. Pegou no prato e no copo e, sem saber onde ia, largou-os logo a seguir. Levou as mãos à cabeça. Lembrou-se que estava atrasado. Eram trinta anos depois. Bem podia ser agora, ou mais tarde. Ele já não era hoje. 

 

Era uma casa que se duplicava, e que à noite sussurrava amor

Quando aparecíamos todos ao mesmo tempo, éramos muitos, e a casa fazia o favor de duplicar. A mesa desdobrava-se noutra e albergava-nos sem excepção. Pratos e copos desavindos, e uma ou outra colher a servir de garfo. Os ovos faziam par com as salsichas, e as batatas fritas empapadas em óleo, repousavam em guardanapos de papel, até a avó dar ordem.

"Vá, filhos, toca a comer."

Havia um que não gostava da gema, e outro que não gostava da clara. Havia sempre algum a abusar da coca-cola, e outro a controlar quantos copos a menos esse ia beber amanhã. 

"Hoje fico no lugar do avô."

Dava sempre discussão, como se a cadeira do avô nos fizesse maiores, melhores. Como se dali se visse o mundo todo, e um bocadinho mais além.

A noite chegava devagar, como se não quisesse incomodar tanta luz com escuridão. Então, havia banhos de par em par, pijamas improvisados, canecas de café com leite, e bolachas Maria barradas com manteiga Planta. 

Éramos cinco para uma cama de corpo e meio, e eu imaginava sempre algum a ser serrado em dois, mas nunca eu. No chão de madeira velha, a avó empilhava cobertores até conseguirmos fingir que tínhamos um colchão. Dois apertavam-se na cama, outros três no soalho. Conversávamos baixinho, num riso que se segreda e uma felicidade que se abafa, mas não se contém.

Era quando iam adormecendo, um a um, que eu me mantinha acordada para os ouvir.

No quarto que guardava a porta de casa, no silêncio dos netos que se renderam ao sono, os meus avós falavam num sussurro doce e indecifrável. As luzes do candeeiro de rua a iluminar parte do corredor, os ponteiros do relógio da sala a embalar a noite, e eles. As vozes baixinhas a contar histórias que nunca soube quais eram.

Fechava os olhos e deixava-me adormecer. Até hoje, ninguém escreveu balada mais doce, que a melodia dos meus avós a conversarem na noite.

Dois miúdos, um aniversário e uma faca de cozinha

1 de junho de 1988.

A entrada da casa da vizinha era uma espécie de terraço que desaguava numa cozinha. Havia uma parreira que trepava pelas paredes e abraçava-se lá em cima, a fazer sombra a quem lá parasse.  A porta  era escudada por umas fitas de plástico vermelho, onde eu gostava de me enrolar. Diziam que era para afastar as moscas, mas era pouco eficaz a afastar-me a mim.

"Não te pendures, que isso cai. E larga isso, olha as moscas."

Naquele dia, as fitas estavam arredadas, o que me fez pensar que um bocadinho de moscas não fazia mal a ninguém. Penduraria-me mais vezes. No chão, uma imensa toalha de piquenique, eu, o aniversariante, e um balde de Playmobil. Era dia de festa, e cheirava a bolos.

De vez em quando, passava pela mesa grande, improvisada com ripas de madeira, e esquivava-me para a cozinha. Queria ver a vizinha a bater claras em castelo, e a tapar os buracos dos bolos com tampas de tupperware, porque ficavam mais bonitos.

"Esse é de quê? Eu não gosto de chantilly. Posso rapar? Ele faz mais um ano que eu, sabias?"

Sabia, que o pariu.

O dia ia longo, e um choro aflito estremeceu as parreiras. Quem costumava chorar era eu, ele não, mas tinha razão. Na tentativa de deixar careca um dos bonecos, cerrou-lhe os dentes para lhe arrancar o cabelo, e ficou com o lábio entalado. Ele gritava e o lábio inchava, e ele gritava ainda mais.

Na pressa de ver o rapaz despachado para a própria festa de aniversário, a vizinha pegou na maior faca de cozinha que encontrou e foi, decidida, resolver a questão. Quatro olhos arregalaram-se. Os dele e os meus. Houve um silêncio que encheu o terraço, até que ele gritou:

"Chama a Júlia!"

E eu chamei. 

Primeiro riu-se, porque ela ri muito e aquilo tinha graça. Riu-se dos quatro lábios que ele parecia ter, e da vizinha, desnorteada, ainda de faca na mão. Depois, devagar, e sei lá como, desentalou-lhe o lábio, devolveu o cabelo ao boneco e o boneco ao balde. Ajeitou a saia, riu mais um bocadinho e despediu-se com um "Até já, e não te pendures nas fitas".

Foi nesse dia quente de junho, à sombra de uma parreira, na doce calmaria que segue sempre uma tempestade, que percebi: a minha avó era de toda a gente.

O meu sítio calmo é uma canção numa noite de verão

Quando penso num dia calmo, é verão e corre uma brisa fresca que não chega para me desalinhar os cabelos. O anoitecer demora e enamora, como um filtro de luz que nos embala.

Quando tudo é turbilhão, penso na aragem que me sopra a nuca e no arrepio que me percorre a espinha.

"Vai para o teu sítio calmo."

É tarde, mas não sei as horas. O pátio, ainda despido de telhas, é iluminado por uma Lua que só pode estar cheia, e varrido por um vento que mal chega a sê-lo. As lágrimas molham-me o vestido fino e o mau estar percorre-me o corpo. Bebo água fresca com bolhas que me fazem cócegas na língua. "Bebe que já passa. Já passa." 

Ergue-me no ar e repousa-me  nos ombros. Encosto o rosto molhado aos cabelos finos, alourados como os meus, enquanto lhe laço o pescoço. Cheira ao champô que dividimos. Caminha, para lá e para cá, num passo sereno que me acalenta. Baixinho, quase num susurro envergonhado, canta.

"Menina estás à janela, com o teu cabelo à Lua..."

Quando a vida é tormenta e agitação, e respirar é em vão, eu fecho os olhos. Sinto o frio glorioso de uma noite de verão, a luz de uma Lua que se encheu num balão, o balançar suave de um caminhar sem razão.

E, enfim, canto a canção. 

Os meus avós são um banquinho de madeira

Adorava comer. E comia como os adultos, entre os adultos. O meu avô fez-me um banquinho de madeira que colocava em cima de um cadeirão. O mesmo que lhe deu amparo nos últimos anos de vida. Eu esticava os braços e ele pegava-me ao colo. Eu achava que ele devia ser muito forte para me fazer voar, desde o chão, até aterrar no banquinho. 

A minha avó pousava-me o prato à frente. Carne cortada como se fossem dados de brincar, massinhas e cenouras, para os olhos ficarem bonitos. Confiava-me o garfo e a tarefa. Sabia que não era preciso mandar-me comer tudo.

Um dia, levou-me de autocarro até à vila.

"Vamos ao Doutor e depois compramos uma revista."

Não me pareceu mau negócio.

"A menina está gorda. Não a podem deixar comer da maneira que quer. A menina está gorda. Tem de fazer dieta. A menina está mesmo, mesmo gorda. Não quer ser feia, pois não?"

E eu não queria, mas já me sentia. Gorda e pequenina. Tanto, que desejei ter o meu avô a lançar-me no ar até ao banquinho que me fazia crescer.

Não me lembro das despedidas, nem do plano de dieta para deixar de ser a menina gorda que agora era. Lembro-me da mão da minha avó a entrelaçar a minha, para descermos as escadas íngremes que iam dar ao passeio, e de me puxar depois, em passo firme, para a porta ao lado. Uma pastelaria.

"Vá, filha. Agora escolhe o bolo que quiseres, e que nunca ninguém te diga que és feia, tu estás a ouvir ?"

Ainda hoje as bolas de berlim têm o sussurro da minha avó: "tu estás a ouvir?"

Foi aí que percebi que os meus avós foram um banquinho de madeira. Feitos para me elevar, quando acho que o tamanho me falta.

As boas famílias medem-se em revistas Maria

Não sabia bem onde começava e terminava a família. Diziam que o sangue era fórmula, mas nunca me serviu nos cálculos.

Às vezes chegavam visitas de surpresa. Tinham me dito que surpresas eram coisas boas, mas eu quando abria presentes não ficava com o ar desacorçoado da minha avó, quando abria a porta.

"Dá cá um beijinho à tia."

E eu ia beijar os pés da mesa, que não conhecia a senhora e não queria abrir precedentes. É que atrás dela, vinha outra.

"Lá está ela a brincar às escondidas."

Não estava a brincar, não. 

"Oh 'vó, posso ir à vizinha?"

E corria passeio abaixo. Abria o portão verde e entrava sem me anunciar. Não gritamos presente, cada vez que entramos em casa. Sentava-me na sala a ler revistas, à espera da minha vez de jogar naquela coisa que se ligava à televisão.

Um dia, de revista Maria na mão, entretive-me a ler o consultório sentimental. Achava muito estranho se escrever para uma revista a perguntar se se estava grávida, em vez de ir ao médico. Mas isso era eu. Entre várias questões, saltou-me à vista uma em particular, que me intrigou.

"Oh vizinha, o que é um orgasmo? Está aqui uma senhora a dizer que não tem."

O silêncio que se fez, só foi ultrapassado em dimensão pela gargalhada que lhe seguiu. Não aprendi, naquele dia, o que era aquilo que aquela senhora não tinha, mas soube que, família, é onde não temos medo de ser. Mesmo quando tropeçamos em perguntas difíceis.

Trago um bairro comigo

Era um bairro que fazia jus ao nome. Com vizinhos que se conheciam, e distribuíam  ramos de salsa, que apanhavam das hortas, ou ofensas e promessas de "se te apanho mato-te".

No verão, ao final do dia, juntavam-se ao fresco, com o chão de cimento ainda a emanar calor.

Eles falavam de uma coisa que era o Governo, e desabafavam que "assim não vamos lá". Eu não percebia bem onde é que era suposto irmos, mas esperava que não fosse para ir agora, porque aquelas noites eram as minhas preferidas.

Elas falavam das vizinhas que não estavam, e iam rodando a protagonista conforme a ausência de cada uma. "Isto somos só nós a conversar, han!". Acho que foi o primeiro eufemismo da minha vida.

Debruçavam-se nos muros sem nunca pisarem propriedade privada. Espalhavam-se pelo passeio, à luz dos candeeiros, e contavam vida. 

"Oh 'vó, posso comer um gelado?"

"Estás a fazer a digestão."

Odiava a digestão. Não me deixava fazer nada. Um dia parou e passei a dar-lhe valor.

Era um bairro, mesmo bairro. De casas baixas e pessoas altas. De portas sempre abertas, porque não se deixa a família na rua.  De jogos de bola com pé descalço, e joelhos esfolados. De irmãos, que eram filhos únicos.

Sobra pouco bairro, do tanto que o bairro foi, mas se fechar os olhos ainda lá estou. O chão está quente, as vozes misturam-se com o som dos grilos, e a minha avó disse para eu comer o gelado, porque já fiz a digestão. 

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