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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Pediste-me calma e vinte anos depois eu dormi

Lembro-me de me pedires calma, enquanto não conseguias encontrar a tua. Andavas da sala para a cozinha, mãos a bater uma na outra, como se faz quando não sabemos o que fazer. E eu insistia nas certezas absolutas que se têm na adolescência e dizia que não aguentava mais, que nunca traria tanta dor colada a mim, nem a sopraria noutros peitos que já padecessem também.

Abanavas a cabeça, mais triste que desiludido, enquanto, de voz embargada, dizias que não era culpa de ninguém. Que ninguém escolhia sofrer assim. Acontecia, como acontecem outros acasos infelizes. Depois baixavas os olhos, fitavas o chão, derrotado. Porque tu percebias, mas não esperavas que ninguém percebesse.

Agora, sozinha no escuro, enquanto o ar me faltava e desabava de dentro para fora, como maré que enche, sussurraste-me a calma que me pediste tanta vez. Vi-te, mãos a bater uma na outra, como se as minhas dores te doessem em toda a parte, além do corpo que já não és. 

Ouço-te e compreendo. Porque já não tenho certezas absolutas, e aprendi que ninguém escolhe sofrer assim. Ninguém anseia ter de ansiar que o ar chegue, nem que os músculos baixem a guarda e permitam que o corpo descanse.

Sinto a respiração a voltar ao normal, e o peito percebe que afinal tem todo o ar do mundo à disposição. O corpo relaxa, como um soldado que vê a bandeira branca e sabe que a guerra acabou. Os olhos pesam, e sei que vou poder dormir, embalada pelos teus pedidos de calma de há vinte anos. 

Às vezes acho que percebias, porque também tu eras mar revolto. Talvez por isso tenhas escolhido o rio.

Está tudo bem

Sei que estás acordada, apesar das horas. Amanhã tens escola, devias descansar. Deixa de olhar as cortinas, até ter passado tanto tempo, que as formas vão mudando de forma. E se apagasses a luz? Esse livro encostado ao candeeiro, para fazer sombra, não é igual à paz de um quarto escuro. Deixa de olhar o abajur e fingir que é um acordeão a embalar-te as noites. Fecha só os olhos.

Sei que não queres dormir, apesar do sono te pesar as pálpebras, e o cansaço te minar o corpo pequeno. Larga os livros que fazem pilha ao lado da cama. Podem fazer-te companhia fechados, despojados da tua atenção. Fecha os olhos e inventa uma história feliz. Diferente das que te contas todos os dias. Descansa.

Eu sei. Eu sei que queres velar o corredor escuro, para antecipar a escuridão. Que o medo atenuado pela luz, é medo à mesma e não te deixa dormir. Eu sei que contas os segundos, num dueto perfeito com os ponteiros do relógio. Como se contar o tempo, fizesse o tempo passar mais rápido. Pára. Por favor, fecha os olhos. Está tudo bem. São muitas noites mais tarde, e está tudo bem.

 

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