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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Voltas memoráveis

As ruas estão mais largas, como se quem as projetou soubesse que há que dar espaço à saudade. Deixá-la espalhar-se por todos os cantos e becos, e ficar a vê-la a desaguar no rio.

Quem se senta na esplanada não sabe que o seu corpo assenta em pedaços da minha história. Fica ali, na leveza de um gole de cerveja, no mesmo lugar onde o meu avô me levava pela mão para comprar pão. 

- Trouxeste o teu avô a passear?

E eu sorria, envergonhada, a tentar desaparecer atrás dele.

Era uma algazarra boa. Vozes altas que não me assustavam. Gargalhadas vindas de sítios que eu não compreendia. Palmadas nas costas e pancadas na nuca, como faziam os miúdos da escola.

O largo da praça não tem largura suficiente para as memórias que carrego comigo.

O canto do Fragoso agora é um espaço vazio, forrado a jornais que debitam notícias antigas. Espreito e não vejo a minha avó debruçada ao balcão a escolher camisas.

É uma volta sem volta, esta de passear com vidas atreladas. É que nunca a volta vai ser tão memorável como as outras voltas que se deram antes.

Hoje passei por casa

Fui levar as compras à casa da minha avó, e deixei-me estar a conversar. Ela não percebe tudo, acho que nem ouve tudo, mas sorri a tudo. Dá palmadinhas nas pernas, como quem diz "vá, isso também vai passar". E eu continuo. Num quase monólogo. Uma enxurrada de "ais" e "tu vê lá", que arranco da alma e lhe deito nas mãos. O que faz depois com eles, não sei. Mas deixam de estar no meu campo de visão, aninhados no meu peito, a pesarem-me toneladas e a colarem-me ao chão. 

"Queres almoçar, filha?", e ela sabe que não quero, mas é a pergunta e o cuidado que me alimentam.

Depois, mostra-me vestidas, as camisolas de malha que lhe levei. Lembro-me das vezes em que íamos à feira de mãos dadas, e me comprava roupa. Chegadas a casa, era a primeira coisa que fazia.

"'vó, fico bem?"

"Ai, que coisa mais linda, filha."

A minha avó foi muito boa a desviar-me dos receios e a ensinar-me o amor próprio. Sempre encolheu os ombros às dores menores, às vezes até às assim-assim, porque isto é passagem e ela sabe disso.

Colocou-me, desde pequenina, no caminho certo para, pelo menos, viver sem muitas angústias, muitos "ai jesus". Mas quem pegou no volante fui eu e o caminho foi sendo diferente do que poderia ter sido.

Sou menos Júlia do que gostaria, mas gosto que tenha tido a Júlia a regar-me as raízes. No meio das tempestades, há-de sobrar alguma Júlia em mim.

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