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Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Life With Júlia

por Susana C. Fernandes

Eu vou por ali

"Se a morte vier por aqui, eu vou por ali. Mas sei que, um dia, vamos ter de nos encontrar."

Sempre que o meu avô dizia isto, eu imaginava uma encruzilhada. Ele e uma figura preta, de foice na mão, ficavam frente a frente, como que a ponderar um cumprimento. Depois um ia pela esquerda, outro pela direita. Fosse, como fosse, ele chegava sempre a casa, e eu achava que aquele era um cumprimento que nunca se iria fazer.

Não sei em que altura me apercebi da efemeridade da vida. Morriam pessoas à minha volta, mas nunca nada morria em mim. Era gente de outras gentes, choros que não me molhavam o colo. Um dia tive medo. Então, mas é assim? Vive-se uma vida, ama-se alguém para sempre, e depois ela vai-se embora? 

O meu avô foi a primeira pessoa que perdi, e fez todo o sentido. Ensinou-me tanta coisa durante a vida, porque pararia depois da morte?

Cada vez que o peito aperta e é difícil viver, penso nele e na encruzilhada, e escolho a vida. 

Hoje, como sempre, vou por ali.

Quero saber

Revirei-me do avesso, despi-me de dentro para fora. Quero saber de onde vem isto de sentir tanto. Em demasia, para o pouco que um só peito suporta. Quero saber. Quem me tornou cativa do meu coração. A contar-lhe batidas, anseios, corridas. Ao menos que me fizessem maior. Ou dividissem as penas por mais prisioneiros. 

Fiz contas ao que tenho, e sobrou-me saudade. É o troco que se leva quando se sente. E eu já disse que sinto muito. Não tenho porta-moedas para tanto sobejo. Às vezes, deixo-as cair. Copiosamente, como chuva em dezembro. Depois resto-me a mim para as apanhar, secar, guardar.

Viver cá dentro é conviver com tudo o que foi, e tudo o que será. Estou cansada de não ter espaço definitivo no tempo. Quero saber o agora. 

Quero saber. 

 

Se caíres, não te demores

"Ai, minha rica filha."

Era assim, de sobressalto na voz e mãos na cabeça, como quem vê a desgraça a passar-lhe rente ao peito, que a minha avó reagia quando me via cair.

Com mais ou menos sangue, mais ou menos lágrimas, o aparato era igual. Nem maior, nem mais pequeno.

"Ai, minha rica filha."

Corria até mim, levantava-me, sacudia-me o vestido, e limpava-me as feridas, se as havia. Depois voltava serena ao que estava a fazer, enquanto anunciava que aquilo não era nada e eu, que fosse à minha vida.

Foi assim pelos anos fora. Condoída por me ver sofrer, mas logo pronta a desfazer os nós que às vezes eu própria emaranhava. É um desapego apegado de quem sabe que tudo se perde, e não há tempo a perder.

Cada vez que me desiquilibro e esfolo os joelhos da alma na vida, ouço-lhe o grito, e sei que, a seguir, vai ficar tudo bem.

Ansiedade

O corpo humano é composto, em média, por 70% de água. Diria que substituí a água por medos e ansiedades. Nunca fui boa a hidratar-me. Não tenho memória de uma noite bem dormida ou de um dia sem sobressaltos infundados. E só me apercebi que a norma era anormal anos mais tarde, quando a ansiedade passou a ditar os passos que dava, as dores que tinha no corpo e os minutos que não me permitia ser. Simplesmente ser.

Viver comigo foi uma arte que nunca dominei. É irónico não saber estar com a pessoa com quem passo mais tempo.

Quando era miúda, os ataques de pânico eram manias de adolescente. Tanto que passavam, como todas as fixações que a adolescência nos traz. Mas o burburinho na mente, e os furacões no peito, persistiram. É a tua maneira de ser. E eu era, como podia.

Há 9 anos, estava na fila do supermercado e soube que ia morrer. Deixei de ver, de respirar, até o coração deixou de bater. E fugi. Num acto de desapego, as compras por registar ficaram abandonadas no tapete, e eu atirei a toalha ao chão. 

Não me lembro de chegar a casa, mas sei que essa viagem foi o início de outra. Penosa, confusa, mas, curiosamente, enriquecedora. Viver com a ansiedade a queimar nas veias, corrói, mas constrói. E eu ergo-me sempre mais forte, a cada tempestade.

O que é que se lê aqui?

Vida. Lê-se vida. A que se vive, e a que se sonha. Histórias que me construíram e outras que quero construir, mesmo que nunca passem de passagens guardadas num canto da internet.

Escrevo desde que me ensinaram que desenhar letras em papel, contava coisas. Umas vezes serviu de prazer, outras de terapia. Algumas era apenas um jogo engraçado, porque havia palavras que rimavam num cantar bonito.

E Leio. Leio muito. Porque quero que um dia digam que leram algo meu.

Vivo  numa ansiedade que grita presente a cada hora e fui descobrindo que falar sobre ela retira-lhe força. Contem, por isso, com ela aqui, numa partilha desnuda e sem filtros. Nem sempre vai ser bonito, mas espero que seja enriquecedor e se possa, cada vez mais, falar de saúde mental sem medo de rótulos toscos, quase sempre errados.

E se a vida é comigo, porque é que o nome é dela? Porque a minha avó Júlia é a bússola  com a qual encontro o norte. E se, nas histórias que conto a conseguir sempre encontrar em  mim, sei que vou ficar bem.

 

A Vida Com Júlia

Na casa da minha avó havia sempre gargalhadas e cheiro a café. Havia uma paz que balançava com as cortinas, na aragem fresca do fim de dia. As manhãs madrugavam sem preguiça ou pouca vontade. Era mais um dia que nascia só para sermos. Havia canteiros fartos de rosas que hoje trago na pele. Ela regava as flores que ele plantou e adubou. Eu empoleirava-me de pé descalço nos muros finos e brancos, com a certeza de que o mundo era um lugar feliz.

Na casa da minha avó havia sempre cor e calor. O sim era regra a todas as regras que tentava desafiar, e isso ensinou-me os limites ditados pelo amor. Os vizinhos diziam sempre bom dia, e eram família e ficavam. Os dias eram calmos na certeza que a noite traria o abrigo de um tecto suportado a afectos.

Na casa da minha avó havia sempre o sorriso dela. Mesmo quando a vida era só tão pouco, mesmo quando o sangue não servia de laço e se lassava, mesmo quando tudo doía, ruía, a Júlia sorria e eu dizia, um dia quero ser como ela.

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